O ovo da serpente

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Como não historiador, suspendo em dúvida as impressões que trago da República de Weimar.  Umas poucas leituras, muito senso comum e uma terrível angústia quando revejo uma das obras-primas de Ingmar Bergman retratando um caldo de cultura que também contribuiu para a ascensão do nazismo na Alemanha [O OVO DA SERPENTE (Das Schlangenei / The Serpent’s Egg) Alemanha/EUA, 1977].

Aterrorizam-me os processos em que o medo vai se embrenhando no dia a dia de uma comunidade de tal modo que as posturas autoritárias apresentam-se cada vez mais naturalizadas e o que espanta àquele coletivo são as atitudes discordantes. Com matizes e intensidades variados, encontro imposições e silêncios em inúmeras instituições cotidianas (famílias, empresas, escolas, clubes etc.). Emblemático para os nossos tempos foi a aprovação do Patriotic Act por uma nação que, no século XVIII, melhor representou – através do processo de sua independência – os ideais iluministas e que serviu como modelo para o surgimento de muitas democracias modernas. Acredito que a criação dos Estados Unidos da América ajudou muito mais a difusão de ares republicanos do que a tão mistificada Revolução Francesa, que gestou um império napoleônico e não um estado democrático.

Eu vejo, em muitas de nossas renúncias públicas e privadas, uma contribuição tácita para a  legitimação  de pequenas e grandes tiranias. Lembro-me, também, de uns versos de Eduardo Alves da Costa:

No caminho com Maiakóvski

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Ao pé da letra

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Eu acredito que todo cidadão pode – quando lhe é conveniente – “levar ao pé da letra” as coisas que lê, ouve ou escreve. O exercício da advocacia seria bastante prejudicado se este direito anterior ao próprio Direito não alimentesse disputas cotidianas. Também os amores seriam menos épicos e menos risíveis.  Chatos como eu teriam reduzidas as suas chances de implicarem com o mundo.

“Democratização”

Não são poucas as instituições que usam de modo inadequado a expressão acima. Empresas, escolas, partidos políticos etc. Na verdade, muitas vezes, pretendem apenas exaltar os seus esforços para tornar mais acessível aos integrantes de uma comunidade um produto, um serviço, uma ideologia. Confundem o expandir de suas fronteiras com a defesa da liberdade de expressão.

É pertinente a outros chatos inquirir à Democracia: são inúmeras as representações que o termo assume ao longo da história ocidental e o ideal democrático talvez seja um dos nossos mitos mais caros. Grosso modo, pressupõe o debate responsável, a possibilidade da crítica construtiva, o respeito às diferenças de opinião.

Ressalvas à parte, é compreensível que uma instituição, diante de suas vocações e possibilidades, não seja democrática: um empresário não é obrigado a compartilhar o seu poder de decisão sobre os rumos de sua empresa com os seus colaboradores diretos, com os seus clientes ou com a comunidade que o acolhe. No entanto, toda filosofia séria leva os seus adeptos a questionarem o universo em que se inserem: devemos estar atentos às propagandas enganosas.

(copiado de: http://principetito.blogspot.com/2010/07/censura.html)

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Virando o rosto

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Num artigo publicado recentemente neste blog e intitulado “Esqueceram de mim I, II, III e IV”, apresentamos os componentes de um Conselho de Ring  responsável por gerenciar as disputas dentro da modalidade Luta Livre nas competições do Taekwon-Do ITF. Como pudemos verificar, o Árbitro Central é o responsável pelo bom andamento de um combate, cuidando principalmente do seu aspecto disciplinar. Deste modo, além de orientar os Atletas (e também os Árbitros Laterais) para o cumprimento de um certo protocolo padrão, usa de suas prerrogativas para, se necessário, punir os competidores, atribuindo-lhes advertências ou faltas. Portanto, a atuação do Árbitro Central pode influenciar diretamente o resultado de uma luta pois, a cada três advertências recebidas por um Atleta, este perde um ponto e a cada falta imputada a um Atleta, subtrai-se-lhe imediatamente um outro ponto.

É muito importante estarmos atentos a um erro grave e não raro cometido pela maioria dos Árbitros Centrais, mesmo por aqueles com graduação elevada (para os padrões brasileiros) e com um longo histórico de participação em torneios.

Qual a punição para um Atleta que, ao ser atacado, vira o rosto  com medo de enfrentar diretamente o perigo que lhe é iminente ?

A resposta é até muito simples: ele fica mais exposto ao primeiro ataque de seu oponente, sujeitando-se ainda a receber uma sequência de golpes, pois ignora a movimentação do adversário.

Então qual a razão para tantos Árbitros Centrais acrescentarem erroneamente uma advertência ao infortúnio do Atleta acuado?

Eu tenho dois palpites e uma certeza.

  • pretendendo ser didáticos e protetores imaginam que, punindo o Atleta com uma advertência, evitam-lhe a  ocorrência de uma situação futura semelhante; no entanto, favorecem ainda mais o seu oponente que, além de já ter pontuado em uma pessoa desprotegida, pode ser agraciado com a dedução de um ponto do Atleta punido, caso este some três advertências;
  • os Árbitros mais novos vão imitando os Árbitros mais experientes, copiando-lhes os erros e os acertos;
  • é certo que ignoram o que está escrito sobre as advertências no regulamento oficial da International Taekwon-Do Federation.

No item T38 de ITF Rules of Competition – Section 3 – Sparring estão definidas quais são as únicas atitudes que devem ser punidas com uma advertência:

  • atacar um alvo não permitido;
  • pisar com os dois pés fora do ring (exceto nos casos em que o competidor for conduzido de forma ilegal para fora do ring);
  • tocar o solo com quaisquer partes do corpo que não sejam os pés;
  • segurar e empurrar o adversário;
  • tentar “passar uma rasteira” no adversário;
  • fingir que se machucou para tentar obter alguma vantagem;
  • evitar intencionalmente o combate;
  • comemorar um ataque levantando o braço para tentar induzir os Árbitros Laterais a marcarem um ponto a seu favor.

Há ainda um agravante nesta história: ao sinalizar a advertência irregularmente administrada, os Árbitros Centrais utilizam de um gestuário que não existe em nenhum manual de arbitragem…

Corrigindo os nossos erros

Em sua totalidade, os Árbitros são Faixas-Pretas abnegados (muitos deles são Atletas que ainda competem após toda uma jornada num Conselho de Ring) e que se esforçam, dentro de suas possibilidades e motivações, para viabilizar a realização de um torneio. Como não existe um “plano de carreira” atrativo para este tipo de colaborador, é pouco provável que um jovem Faixa-Preta tenha como meta, por exemplo, tornar-se um grande Árbitro Internacional. Assim, não há uma demanda que justifique visitas constantes do Comitê de Competição e Arbitragem (ITF Tournament and Umpire Committee) para a realização de cursos de atualização no assunto.

Por outro lado, é essencial que, internamente, as associações de Taekwon-Do ITF no Brasil realizem – com a frequência necessária para elevar a qualidade da arbitragem em nossas competições – cursos ou mesmo encontros informais para o treinamento de nossos colaboradores. Para tanto, basta convidar Faixas-Pretas da própria associação que dominem o tema e que possuam uma boa didática (qualquer que seja a sua graduação, o que importa é o real domínio da arte de arbitrar) ou, se necessário, convidar um colaborador externo competente para este fim. Além disso, seria muito interessante, de tempos em tempos, a realização de um curso para a formação de Árbitros Nacionais com a chancela da Federação Brasileira de Taekwon-Do ITF. Não podemos nunca esquecer de que a frequência com que são graduados novos Faixas-Pretas é muito maior do que a frequência com que se realiza qualquer tipo de treinamento. Também não podemos nos contentar com as reuniões de Árbitros que ocorrem meia hora antes do início de cada torneio: o foco destes encontros é gerencial e não educativo.

Precisamos, antes de reclamar da arbitragem, preparar com qualidade os nossos colaboradores. De preferência, com um treinamento constante e com um custo muito baixo para os envolvidos.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro