O terceiro “J”

por Laís Semis

Do túmulo pichado em Paris, no mesmo cemitério em que se encontram também Chopin e Oscar Wilde, ressurgem as lendas. Lendas criadas em suas viagens de infância sobre índios e xamãs das estradas do Novo México, sobre sua banda e sua morte, que muitos acreditam ter sido forjada. Ser cantor, ter uma banda, atrair multidões não estavam nos seus planos. Ele queria mesmo era ser escritor ou sociólogo, adorava autores como Aldous Huxley e Arthur Rimbaud; não via muita coisa na TV e não tinha assistido mais que dois shows em sua vida.

“Vamos formar uma banda de rock e ganhar uma fortuna”, foi o que o tecladista Ray Manzarek disse a Jim Morrison quando o ouviu cantar pela primeira vez na faculdade de cinema. O Doors era diferente dos Beatles e dos Stones, não apenas a música, mas também o público. Pela fúria e pela beleza conquistou a juventude incendiária dos Stones e as garotas românticas que compunham a platéia beatlemaníaca.

Em meio à avalanche de reconhecimento como poeta e músico, ele queria mesmo era ser dono de um teatro. Fato visível em suas entrevistas, letras, histórias, apresentações. Apresentações teatrais em que interpretava o Adônis e a alma possuída ao mesmo tempo.

O sucesso nos Estados Unidos o dominou e o consumou. Vivendo sempre nos excessos, Jim Morrison era uma pessoa que se dizia capaz de manipular a imprensa e que adorava checar os limites da realidade por curiosidade. Calças de couro, olhos azuis, cabelos escuros encaracolados. Símbolo de beleza, juventude e uma posterior e fatal decadência. O sucesso lhe virou ao avesso, do universitário tímido de cinema passou a figura do poeta bêbado incontrolável; de sedutor, a alguém desleixado, com a barba sempre por fazer e acima do peso.

Jim Morrison em seu retrato mais conhecido, fotografado por Joel Brodsky, em setembro de 67

Atormentado com a vida que estava levando, foi em busca de paz e descanso que se mudou para a França e jamais retornou. Pouco menos de 4 meses após se mudar para Paris, Jim Morrison era o terceiro “J” da geração hippie; não apenas compôs o mesmo time que Janis Joplin e Jimi Hendrix nos palcos, mas também se conduziu ao mesmo destino trágico.

Assim, partiu junto aos anos 60, pondo fim à loucura desenfreada dos hippies e da contracultura, abrindo portas para os 70. Porque, como aprendeu Jim Morrison com William Blake, “quando as portas da percepção são abertas, as coisas surgem como realmente são: infinitas”.

Doors no outdoor de promoção do seu próprio álbum. Janeiro de 1967

3 Respostas

  1. Parabéns pelo texto Laís. Aprendeu comigo ! rs….

    Beijos !

  2. Absurdamente bom!
    parabéns Lais!

  3. Adorei o texto , vc escreve muito bem !

    Gde bj .

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