O atleta e a lesão crônica

por       Daniel Bartholomeu

José Maria Montiel

Flávio Spigato

Uma lesão grave pode determinar o término da carreira de um atleta e, neste caso haverá uma grande publicidade sobre o acidente. Outras lesões de menor importância, entretanto, não atraem a atenção mas sistematicamente vão minando, silenciosamente, a saúde do atleta pela deterioração dos ossos, cartilagens, ligamentos e nervos. O abandono do esporte, causado por uma lesão permanente, leva o atleta a apresentar atitudes e condutas das mais diversas na tentativa de achar um caminho para o seu ajustamento. Estas reações estão associadas as habilidades que ele adquiriu no seu passado e na sua evolução humana. O estado psicológico do atleta antes de sua lesão, tem grande influência sobre como ele vai reagir nesse periodo crucial (Samples, 1987). Na cabeça do atleta passam pensamentos sem solução imediata como o abandono definitivo do esporte e as implicações financeiras e sociais que isso acarretará. Para muitos a identificação como um atleta é importante para os seus sentimentos de valorização pessoal e necessidades interpessoais. O reconhecimento de suas qualidades como atleta por toda uma sociedade reforça sua motivação para seguir sua vida esportiva. Segundo Ogilvie & Howe (1986) quando é privado desse reforço o atleta sofre dura perda que é incrementada na medida em que ele não tem outra formação profissional ou não possui um talento que lhe permita efetuar uma transição para outra carreira na sociedade.

Para realizar uma transição suave e saudável da situação de atleta para a de não atleta, é fundamental a auto-estima do sujeito. Muitos dos atletas, mesmo os olímpicos, não tem altos níveis de valorização pessoal e, dessa forma deverão ter muito mais reforços das pessoas significativas para eles durante este periodo difícil (Henschen, 1992; Poole, et al., 1986). Por outro lado, os atletas que acreditam que eles são pessoas boas e importantes, mesmo sem a presença do esporte, terão mais facilidade de ajustar-se do que outros que entendem que ser atleta é tudo que eles tem (Henschen & Shelley, 1993). A perda de consideração e de status, o bloqueio de um estilo de vida excitante, podem complicar a transição do atleta lesionado para o status de não atleta. Quase sempre os chamados amigos próximos desaparecem e o atleta lesionado poderá contar somente com o apoio da familia. Segundo Becker Jr. (1995), aqueles que tiveram até então um vínculo forte com a família, se sentirão muito melhor apoiados do que aqueles que tinham conflitos ou uma relação superficial com a mesma. A família, em geral, terá sérios problemas financeiros, interpessoais e de distribuição do seu tempo para cuidar do jogador enfermo. Deve ser lembrado, também que alguns esportes mais agressivos como o boxe e o full-contact, causam transtornos cerebrais de diferentes níveis, determinando não só o término da carreira do seu praticante, como limitando seriamente as alternativas para ele iniciar outras carreiras fora do esporte.

Reações do atleta à lesão crônica

Qualquer tipo de ferimento grave no ser humano, seja ele atleta ou não, causa também transtornos psicológicos. Segundo Wiese & Weiss (1987) no atleta as reações psicológicas estão associadas a seus atributos pessoais. De modo geral, segundo Kubler-Ross (1969) todo atleta passará por cinco estágios que são:

a. Negação

O atleta não aceita a lesão e consulta outros médicos para ouvir um diagnóstico diferente. Esta atitude é compatível com o que ele aprendeu no esporte como, nunca abandonar o jogo, suportar qualquer dor e etc. Quanto mais cedo ele aceitar a nova realidade, mais fácil será para ele chegar aos outros estágios e à superação (Ogilvie, 1987).

b. Raiva

Aqui ocorrem sentimento de ressentimento, hostilidade, inveja, raiva e fúria e as pessoas que são mais atingidas são os amigos e familiares que estão tentando ajudá-lo. Os sujeitos bem ajustados passam rápido pelas duas primeiras fases, enquanto aqueles que já tinham problemas de ajustamento podem ficar na fase de negação durante muito tempo e apresentar fúria contra os outros e auto-agressão.

c. Pena

Nessa fase o atleta sente pesar pela perda da aptidão que possuía e todos os benefícios que conseguia com sua atividade. Há utilização de mecanismos de defesa como ficar lembrando os grandes feitos do passado e fantasiando acerca do futuro. Segundo Rando (1984), essa fase será superada de acordo com a maturidade e inteligência do atleta, bem como do apoio social que lhe for dado. Quando o sujeito aceitar que milagres não acontecerão (Henschen & Shelley, 1993), e de que ele terá que enfrentar um novo desafio, estará pronto para atingir as duas próximas fases.

d. Depressão

Ao aceitar a sua lesão permanente, o ex-atleta experimenta a sensação de perda definitiva, o que gerará sentimentos de depressão. Neste momento é comum o isolamento do sujeito de seus colegas, amigos e familiares, justamente aquelas pessoas que poderiam apresentar-lhe um apoio significativo para a superação de seu problema. Quando o sujeito pode ver alguma alternativa futura para sua vida, poderá passar para a última fase.

e. Reintegração

Essa é a fase de superação do problema mas pode apresentar alguns transtornos. É muito fácil falar ou escrever sobre ela mas o ex-atleta que a enfrenta ainda tem dificuldades que, segundo May & Sieb (1987), estão associadas a: 1. funcionamento psicológico do sujeito antes da lesão; 2. significado da invalidez para ele; 3. natureza, localização, severidade e duração da lesão; 4. mudanças ocasionadas no estilo de vida dele.

Reabilitação

A reabilitação deverá envolver, além da equipe médica, a familia, amigos, colegas, treinadores e o psicólogo esportivo. Se for necessária uma cirurgia, o psicólogo deverá abordar esse tema de um modo objetivo, dando informações sobre a situação presente e as possibilidades futuras. Essas informações devem ser baseadas no diagnóstico e prognóstico do médico especialista ou da equipe que o está atendendo. O medo da cirurgia poderá ser manejado através de técnicas cognitivas como a visualização, monólogo interno, técnica Becker, hipnose e etc. No periodo pós-operatório o psicólogo poderá seguir com as técnicas cognitivas, além de trabalhar a percepção, pensamento e memória do ex-atleta, no sentido de reforçar que ele continua sendo um sujeito importante e produtivo para sua família e sociedade, não necessitando ter a figura de herói esportivo.

REFERÊNCIAS

Ogilvie, B.C. & Howe, M (1986). The trauma of termination from athletics. In Applied sport psychology: Personal growth to peak performance (1986) Williams, Jean M.  Palo Alto, Calif.: Mayfield Pub. Co.

HENSCHEN, K. P. (1998). Athletic staleness and burnout: Diagnosis, prevention, and treatment. In J. M. WILLIAMS (Ed.), Applied sport psychology: Personal growth to peak performance (3rd Edition), (pp. 398–408). Mountain View, CA: Mayfield.

POOLE, S., BRISTOW, A.F., SELKIRK, S. & RAFFERTY, B. (1989). Development and application of radioimmunoassays for interleukin-la and interleukin-lfi. J. Immunol. Methods, 116, 259-264.

Henschen, K.P., & Shelley, G.A. (1993). Counseling athletes with permanent disabilities. In D. Pargman (Ed.), Psychological bases of sport injuries (pp. 25 1-263). Morgantown, WV: Fitness Information Technology, Inc.

BECKER JÚNIOR, Benno. Manual de Psicologia do Esporte e Exercício. Porto Alegre: Novaprova, 1995.

Wiese, D. M. & Weiss, M. R. (1987). Psychological rehabilitation and physical injury: implications for the sportsmedicine team. Sport Psychologist, 1(4), 318 – 330

KublerRoss, E (1969). On Deafh and Dying, Macmillan, New York. Little, JC (1969). The athletes neurosis: A deprivation crisis, Acta Psychiatrica Scandinavica, 6, 79-92

Ogilvie, B. C. (1987). Counseling for sports career termination. In J. R. May & M. J. Asken (Eds.), Sport psychology: The psychological health of the athlete (pp. 213-230). New York: PMA Publishing Corp.

May, J. R., & Sieb, GE (1987). Athletic injuries: Psychosocial factors
in the onset, sequelae, rehabilitation, and prevention. In J. R. May & MJ Asken (Eds.), Sport
psychology: The psychological health of the athlete (pp. 157-1 85). New York: PMA

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