O treinamento mental no esporte

por                      Daniel Bartholomeu

Afonso Antonio Machado

José Maria Montiel

O processo de treinamento psicológico busca como um todo o equilíbrio emocional revertido em ações motoras acertadas. O treinamento mental, também conhecido por treinamento autógeno, visualização ou imagética e pode ser usado a movimentos específicos ou situações dentro de um contexto de um esporte qualquer. Essa imaginação apresenta-se de forma antecipatória (chegar antes, antever) ou retroativa (buscando seus melhores momentos para ações futuras) (Richardson & Latuda, 1995).

Para Eberspachec (1990) o Treinamento mental seria a repetição planificada da imaginação consciente de uma ação de forma prática. Possui ainda três formas que são mais amplamente utilizadas, a saber, auto-verbalização que consiste em repetir mentalmente o movimento; auto observação, olhar para si próprio, observando os movimentos de uma perspectiva externa; e ideomotora que compreende antever sensações internas na execução do movimento.

Desta forma seria possível utilizar essa técnica para aprender, manter e aperfeiçoar as capacidades cognitivas para execução de movimentos através da imaginação, isto é, recriar uma experiência na mente. Assim, a imaginação compreenderia uma experiência sensorial que ocorreria na mente sem a participação do ambiente, sendo que para cada mudança fisiológica que ocorre no corpo, existiria uma mudança paralela no estado emocional, portanto a imaginação, assim como experiências motoras desencadeiam funções neurofisiológicas similares.

Em consonância, LaVega (2005) e Patrick e Hrycaiko (1998) ressaltam que quando uma pessoa pensa sobre um ato ou movimento de alguma parte do corpo, ocorre um aumento de registros eletromiográficos (atividade elétrica), correspondentes à localização. Destacam ainda a relação existente entre os processos cognitivos e a execução motora, principalmente quando se trata de táticas e estratégias, citando a descoberta de que as habilidades esportivas podem ser adquiridas ou mantidas no mesmo nível pelo treino mental.

 

Referências

Richardson, Peggy A. Latuda, Leslie M. Therapeutic Imagery and Athletic
Injuries. J Athl Train. 1995 Mar;30(1):10–12.

Eberspächer, H. (1990). Mentales Fertigkeitstraining. Sportpsychologie, 1, 5-

13.

Lavega, L. Juegos Y Formas Jogadas De Iniciación En El Voleibol. Barcelona: Paidotribos, 2005.

Patrick, T., & Hrycaiko, D. (1998). Effects of a mental training package on
an endurance performance. The Sport Psychologist, 12, 283–299.

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O mundo gira, a Lusitana roda

Por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

O lançamento de DOGVILE, dirigido por Lars von Trier, em 2003, foi um grande marco para mim: além de um modo de conduzir o olhar do espectador que me era novo, de um cenário teatral com o chão de um galpão riscado para delimitar os diferentes ambientes em que se passa a estória, da crítica a uma religiosidade que justifica pequenas e grandes violências, o que mais me impressiona até hoje é a habilidade com que o filme capta a essência egoísta do homo sapiens.

Há muito adotei uma visão pessimista, com relação às possibilidades de atos desinteressados serem cometidos por mim e por meus pares. Lembro-me sempre do segundo capítulo do livro MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Machado de Assis, 1881), em que o seu personagem principal, Brás Cubas, conta-nos a sua idéia de criar um

“…medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.”

Embora, em princípio, uma tal invenção pudesse apontar para um lado bondoso e desprendido do caráter de nossa personagem,  seguindo mais algumas linhas do texto encontramos revelada a essência de suas intenções:

“Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: – amor da glória.”

Por que Manderlay não me impressionou ?

Eu aguardei com grandes espectativas o lançamento, em 2005, do filme MANDERLAY (continuação de DOGVILLE e dirigido novamente por Lars von Trier). Embora não contasse mais com a atriz Nicole Kidman no papel principal, a personagem Grace foi muito bem interpretada pela  atriz Bryce Dallas Howard e a força desta sequência reside numa abordagem dialética da questão racial nos Estados Unidos da América e que foge das facilidades de um olhar politicamente correto e piegas. No entanto, por que este filme, cuidado por mim como uma obra-prima, não me impressionou o tanto quanto DOGVILLE ?

Coerentemente, a linguagem cinematográfica adotada em MANDERLAY é a mesma da obra anterior e as estratégias narrativas que tanto me surpreenderam no filme de 2003, desta vez, perderam a força da novidade: por mais que eu destacasse (racionalmente) a qualidade da obra, sentia, após o término da projeção, aquele gosto incômodo de “mais do mesmo”.

Sou apixonado pela Lidi.

Dois pesos e duas medidas

Nunca li um texto reclamando de Claude Monet, após ter desenvolvido um novo jeito de pintar, repetir o estilo de suas pinceladas em vários quadros. Nós, leigos em pintura, ficamos até animados e nos sentimos mais “cultos” ao reconhecermos a sua autoria em uma tela (ou reprodução de uma tela) que contemplamos pela primeira vez. O “mais do mesmo” nos permite, então, um gostoso júbilo e nos sentimos um pouquinho mais próximos de uma fraternidade artística usualmente restrita a especialistas.

Uma obra característica de Claude Monet

Mais do mesmo Claude Monet

Eu também poderia ter usado como exemplo o escultor Auguste Rodin ou vários outros nomes. Alguém, em sã consciência esperou de Frank Sinatra uma revolução a cada novo álbum lançado ? Ou que Glen Miller se “reinventasse” a cada nova gravação com a sua big band ? No entanto, todos valorizamos as diferentes fases de uma banda de rock como o U2 (leio, em muita crítica especializada, o uso da expressão “camaleônico” e não sei se o objetivo é realmente informar ao leitor que a banda somente apresentou “novas cores” por um instinto de sobrevivência ou se o termo – rigorosamente mal empregado –  procura denotar a grande  habilidade da banda para expandir as fronteiras musicais do rock).

Prezado Leitor, depois de seus esforços para adentrar no universo de um José Saramago e não se sentir perdido com a sua pontuação, com o seus diálogos, com o seu ritmo, podendo contar vantagem para os amigos de que você lê e compreende uma obra tão complexa e rica, você esperaria que o escritor mudasse a sua linguagem narrativa ?

Por outro lado, um novo álbum da banda Oasis, mesmo que repitisse com muita qualidade a “fórmula” consagrada em (What´s the Story) Morning Glory, de 1995, soaria cansativo. Apenas “mais do mesmo”.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Grito americano

por Laís Semis

No início dos anos 90, depois de um tempo sem se encontrarem, um velho amigo perguntou a Tré Cool como andava sua banda, se estava dando algum dinheiro, se ele tinha que trabalhar em outros empregos para se manter. “Nosso último álbum vendeu nove milhões de cópias”.

Primórdios do Green Day: Mike e Billie Joe tocam em bares da Califórnia

“Dookie” chegaria, mais tarde, a 15 milhões de cópias e ao segundo lugar nas paradas americanas.  Em 2004, dez anos mais tarde, repetiriam o sucesso.

(When I Come Around, do álbum "Dookie")

 

American Idiot

A companhia perdeu a Guerra hoje. Eu imploro para sonhar e discordar das mentiras sujas.

(American Idiot, a faixa título) 

“Talvez a primeira audição de “American Idiot” gere num adolescente de hoje as mesmas sensações que a geração do The Clash sentiu ao ouvir “London Calling” pela primeira vez…” tenta definir Philippe Seabra, o líder da banda oitentista brasiliense Plebe Rude.

Quando o Green Day chegou com o “American Idiot”, em plena era Bush, o mundo da música parou e o da banda acelerou. Se você pedisse numa loja por Green Day, os vendedores, antes mesmo de saber por qual álbum você procurava, já davam a resposta automática de que o “American Idiot” estava esgotado, porque todo mundo estava atrás dele.

O “American Idiot” é uma ópera rock (assim como “Tommy”, do The Who), um álbum inteiro com a missão de contar uma história, um álbum em que todas as faixas estabelecem algum tipo de relação entre si – contando a saga de um personagem –, muito embora possam existir sozinhas.

O sucesso do disco ultrapassou o de “Dookie”; eles alcançaram o primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos, Canadá, Rússia e Austrália, chegando à marca de 14 milhões de cópias vendidas, numa época em que a indústria fonográfica foi fortemente abatida pela Internet.

Billie Joe Armstrong (guitarra e vocais), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria)

“Bullet in a Bible” foi o sucessor da primeira ópera rock do Green Day e se tratava de um CD/DVD ao vivo de hits passados da banda e algumas faixas do “Idiot” que ainda não haviam se consagrado, como “Are We The Waiting” emendada à raivosa “Saint Jimmy”. O resultado foi que sete das treze músicas que integravam o disco de estúdio se tornaram singles.

 

21st Century Breakdown

Sonhe, América, sonhe. Grite, América, grite. Você acredita no que vê sobre heróis e malfeitores?

“Vamos fazer ‘American Idiot – parte II’”, respondeu o baixista Mike Dirnt quando indagado sobre o que vinha pela frente depois do estrondoso American Idiot. “E depois ‘American Genius’”, acrescentou Mike. E a verdade é que (a também ópera rock) “21st Century Breakdown” não é tão diferente assim do álbum de estúdio anterior.

Dividido em três atos, ele se equipara a “Idiot” não somente pelo molde, mas também pelo teor político das canções.  O primeiro tratava do caótico mundo americano do Governo Bush, pós-11 de setembro, a paranóia, a mídia, a invasão ao Iraque. Este outro não encontra a esperança em Obama, apenas continua uma aventura no país, onde os personagens se utilizam o que lhes resta para lutar contra a morte do sonho americano.

A trajetória e o final dos personagens Christian e Gloria que estréiam “21st Century” podem até serem outros, mas a situação em que se encontram os personagens não é tão diferente daquela de Jesus of Suburbia do disco anterior. Infâncias perturbadas, violência, armas, ira, loucura, sentimentos extremos, paixão, uma garota, um caminho, a busca pela (talvez) redenção. Se o Jesus do Subúrbio do outro disco era filho de ódio e amor, este novo herói é feito de veneno e sangue. Perdido, não se encaixa na classe trabalhadora, faz parte da geração zero. E Gloria é tão vítima de seu destino e tão produto do meio quanto Whatshername de “American Idiot”.

Green Day apresenta seu oitavo álbum de estúdio, 21st Century Breakdown

Diferente dos primeiros discos, de sonoridade crua, energia exalante e explosiva, a banda aparece nestas óperas rock em altos e baixos, momentos de fúria e momentos de tranqüilidade tanto na música do Green Day quanto na história de suas personagens, como um épico deve ser.

Mais político, menos ácido e mais romântico que o disco anterior (como comprova a ultra-romântica “Last Night on Earth”), é possível notar mais esperança nele também, mesmo que não se chegue a um final feliz. Se “American Idiot” termina com a morte do vilão Jimmy e a volta do herói para sua casa, preenchendo a papelada de trabalho na Rua 12 e remexendo suas memórias a respeito de quem não se lembra o nome, apenas o rosto; em “21st Century Breakdown” o futuro continua incerto, mas com Christian ainda procurando por algo que valha a pena lutar.

Necessidades de processos de avaliação psicológica no esporte

por                    Daniel Bartholomeu

Afonso Antonio Machado

José Maria Montiel

A prática cotidiana do psicólogo do esporte dentro de equipes desportivas apresenta algumas etapas bem delineadas que constituem, como um todo, o processo de preparação psicológica. Essa envolve basicamente atividades de psicodiagnóstico, planificação e intervenção psicológica, assim como reavaliação. Nesse contexto, as atividades de psicodiagnóstico esportivo ganham relevância, já que as características analisadas nesse primeiro momento envolverão rastreio de pontos fortes e fracos do ponto de vista do desempenho esportivo e psicológico dos atletas que possibilitarão delinear os planos de intervenção tanto psicológica como física ou tática. Especificamente do aspecto psicológico, o psicólogo do esporte dispõe de inúmeros instrumentos de avaliação de características psicossociais relevantes ao diagnóstico psicológico dos atletas, como testes de ansiedade, depressão, personalidade, entre outros.

De fato, poucas áreas no âmbito da Psicologia do esporte tem produzido mais debates do que a da avaliação psicológica e isso se deve ao fato de que muitos dos escores produzidos por testes psicológicos, por vezes não associam-se à performance esportiva. Algumas dessas limitações são evidenciadas em decorrência de problemas na construção e validação dos instrumentos desenvolvidos para a área. A maior parte dos métodos psicodiagnósticos estavam condicionados às particularidades e métodos da psicologia no geral. Assim, os primeiros instrumentos psicológicos empregados em contextos esportivos visavam uma avaliação clínica do mesmo, desconsiderando as peculiaridades que cada prática apresenta. Argumentava-se que a maior parte desses instrumentos explicavam uma parcela limitada da realidade e não teriam um poder preditivo sobre o comportamento atlético, principalmente em competição.

À parte dos estudos com testes, um processo de avaliação não é composto somente de testes psicológicos, mas de outros procedimentos de coleta de informações sobre a pessoa. Assim, uma das preocupações atuais reside no diagnóstico esportivo em que essas várias formas de avaliação devem ser sempre arroladas.        Nesse contexto, o educador físico adquire papel fundamental já que dispõe de informações específicas da modalidade e dos atletas em situação de jogo, o que favorece um melhor diagnóstico específico. Psicólogos e educadores físicos devem trabalhar em conjunto para estabelecer um bom diagnóstico esportivo, principalmente em situações de transtornos mentais associados ao esporte em sua presença e mesmo intervenção. Assim, o foco não mais recai sobre o desempenho atlético simplesmente, mas sobre a saúde mental dentro do contexto esportivo.

O melhor da década

por Laís Semis

Os Strokes até que podiam ser uma versão rock das boybands. Tudo programado para funcionar segundo a ordem: cinco caras estilosamente desarrumados e despenteados num cenário antigo de programa de televisão tocando “Last Nite”. A qualidade da imagem também dá essa impressão, de que os Strokes não passam de uma banda velha, tocando músicas de garagem.

(“Last Nite”, o primeiro single dos Strokes)

Vinte e tantos anos mal completados, um disquinho nas mãos, um refrão queimando na garganta de Julian Casablancas. “Last night she said oh, baby, I feel so down…” e uma multidão sedenta e cansada do pessimismo que o Nirvana havia deixado. A consagração não demorou a vir.

Mas, agora, já faz dez anos desde “Last Nite”. Desde que a canção largou os bares e tomou, sem cessar, as rádios de todo o mundo. Em 2005, quando estavam prestes a lançar seu terceiro álbum, o baterista Fabrizio Moretti disse que sentia ter vivido 20 anos em quatro. Afinal, a avalanche Strokes abriu e abraçou a geração. “Is This It?”, o álbum, foi considerado um dos melhores lançados no ano de 2001 e eleito pela revista inglesa New Musical Express (NME), o melhor disco da década de 2000.

The Strokes: de Nova York para o mundo.

“Para algumas pessoas, o Strokes não passa de uma lembrança divertida”, comenta Julian Casablancas, o vocalista, numa perspectiva avaliativa acerca do que a banda se tornou desde o seu início até hoje; contando três discos e uma parada para desenvolver projetos pessoais em dez anos.

Depois de quatro anos separados, o Strokes de agora soa quase como um ressentimento e uma obrigação que devem aos fãs, como se o tempo afastados e os álbuns solos dos integrantes tivessem feito a unidade strokiana se perder. Nesses anos, parece que os Strokes realmente viveram, por causa da internet e do intenso fluxo de bandas novas surgindo a  todo momento no MySpace, uma carreira no ‘acelerado’. Tudo aconteceu muito rápido: o sucesso, a realização de projetos paralelos, o dispersamento da banda. O resultado foi que cada um deles querem tentar experiências novas, pois tiveram uma dose muito grande de Strokes em pouco tempo.

Eles se dizem felizes pelo disco novo, que segundo o baterista se assemelha, musicalmente, ao “This Is It?”. Contudo, o lançamento do quarto álbum já foi adiado três vezes e agora a previsão é de só saia em março do ano de 2011.

Da esquerda para direita: Nikolai Fraiture, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Fabrizio Moretti e Julian Casablancas. Strokes em turnê brasileira do disco "Room Of Fire", foto de Marcos Hermes.