Grito americano

por Laís Semis

No início dos anos 90, depois de um tempo sem se encontrarem, um velho amigo perguntou a Tré Cool como andava sua banda, se estava dando algum dinheiro, se ele tinha que trabalhar em outros empregos para se manter. “Nosso último álbum vendeu nove milhões de cópias”.

Primórdios do Green Day: Mike e Billie Joe tocam em bares da Califórnia

“Dookie” chegaria, mais tarde, a 15 milhões de cópias e ao segundo lugar nas paradas americanas.  Em 2004, dez anos mais tarde, repetiriam o sucesso.

(When I Come Around, do álbum "Dookie")

 

American Idiot

A companhia perdeu a Guerra hoje. Eu imploro para sonhar e discordar das mentiras sujas.

(American Idiot, a faixa título) 

“Talvez a primeira audição de “American Idiot” gere num adolescente de hoje as mesmas sensações que a geração do The Clash sentiu ao ouvir “London Calling” pela primeira vez…” tenta definir Philippe Seabra, o líder da banda oitentista brasiliense Plebe Rude.

Quando o Green Day chegou com o “American Idiot”, em plena era Bush, o mundo da música parou e o da banda acelerou. Se você pedisse numa loja por Green Day, os vendedores, antes mesmo de saber por qual álbum você procurava, já davam a resposta automática de que o “American Idiot” estava esgotado, porque todo mundo estava atrás dele.

O “American Idiot” é uma ópera rock (assim como “Tommy”, do The Who), um álbum inteiro com a missão de contar uma história, um álbum em que todas as faixas estabelecem algum tipo de relação entre si – contando a saga de um personagem –, muito embora possam existir sozinhas.

O sucesso do disco ultrapassou o de “Dookie”; eles alcançaram o primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos, Canadá, Rússia e Austrália, chegando à marca de 14 milhões de cópias vendidas, numa época em que a indústria fonográfica foi fortemente abatida pela Internet.

Billie Joe Armstrong (guitarra e vocais), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria)

“Bullet in a Bible” foi o sucessor da primeira ópera rock do Green Day e se tratava de um CD/DVD ao vivo de hits passados da banda e algumas faixas do “Idiot” que ainda não haviam se consagrado, como “Are We The Waiting” emendada à raivosa “Saint Jimmy”. O resultado foi que sete das treze músicas que integravam o disco de estúdio se tornaram singles.

 

21st Century Breakdown

Sonhe, América, sonhe. Grite, América, grite. Você acredita no que vê sobre heróis e malfeitores?

“Vamos fazer ‘American Idiot – parte II’”, respondeu o baixista Mike Dirnt quando indagado sobre o que vinha pela frente depois do estrondoso American Idiot. “E depois ‘American Genius’”, acrescentou Mike. E a verdade é que (a também ópera rock) “21st Century Breakdown” não é tão diferente assim do álbum de estúdio anterior.

Dividido em três atos, ele se equipara a “Idiot” não somente pelo molde, mas também pelo teor político das canções.  O primeiro tratava do caótico mundo americano do Governo Bush, pós-11 de setembro, a paranóia, a mídia, a invasão ao Iraque. Este outro não encontra a esperança em Obama, apenas continua uma aventura no país, onde os personagens se utilizam o que lhes resta para lutar contra a morte do sonho americano.

A trajetória e o final dos personagens Christian e Gloria que estréiam “21st Century” podem até serem outros, mas a situação em que se encontram os personagens não é tão diferente daquela de Jesus of Suburbia do disco anterior. Infâncias perturbadas, violência, armas, ira, loucura, sentimentos extremos, paixão, uma garota, um caminho, a busca pela (talvez) redenção. Se o Jesus do Subúrbio do outro disco era filho de ódio e amor, este novo herói é feito de veneno e sangue. Perdido, não se encaixa na classe trabalhadora, faz parte da geração zero. E Gloria é tão vítima de seu destino e tão produto do meio quanto Whatshername de “American Idiot”.

Green Day apresenta seu oitavo álbum de estúdio, 21st Century Breakdown

Diferente dos primeiros discos, de sonoridade crua, energia exalante e explosiva, a banda aparece nestas óperas rock em altos e baixos, momentos de fúria e momentos de tranqüilidade tanto na música do Green Day quanto na história de suas personagens, como um épico deve ser.

Mais político, menos ácido e mais romântico que o disco anterior (como comprova a ultra-romântica “Last Night on Earth”), é possível notar mais esperança nele também, mesmo que não se chegue a um final feliz. Se “American Idiot” termina com a morte do vilão Jimmy e a volta do herói para sua casa, preenchendo a papelada de trabalho na Rua 12 e remexendo suas memórias a respeito de quem não se lembra o nome, apenas o rosto; em “21st Century Breakdown” o futuro continua incerto, mas com Christian ainda procurando por algo que valha a pena lutar.

2 Respostas

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: