O mundo gira, a Lusitana roda

Por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

O lançamento de DOGVILE, dirigido por Lars von Trier, em 2003, foi um grande marco para mim: além de um modo de conduzir o olhar do espectador que me era novo, de um cenário teatral com o chão de um galpão riscado para delimitar os diferentes ambientes em que se passa a estória, da crítica a uma religiosidade que justifica pequenas e grandes violências, o que mais me impressiona até hoje é a habilidade com que o filme capta a essência egoísta do homo sapiens.

Há muito adotei uma visão pessimista, com relação às possibilidades de atos desinteressados serem cometidos por mim e por meus pares. Lembro-me sempre do segundo capítulo do livro MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Machado de Assis, 1881), em que o seu personagem principal, Brás Cubas, conta-nos a sua idéia de criar um

“…medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.”

Embora, em princípio, uma tal invenção pudesse apontar para um lado bondoso e desprendido do caráter de nossa personagem,  seguindo mais algumas linhas do texto encontramos revelada a essência de suas intenções:

“Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: – amor da glória.”

Por que Manderlay não me impressionou ?

Eu aguardei com grandes espectativas o lançamento, em 2005, do filme MANDERLAY (continuação de DOGVILLE e dirigido novamente por Lars von Trier). Embora não contasse mais com a atriz Nicole Kidman no papel principal, a personagem Grace foi muito bem interpretada pela  atriz Bryce Dallas Howard e a força desta sequência reside numa abordagem dialética da questão racial nos Estados Unidos da América e que foge das facilidades de um olhar politicamente correto e piegas. No entanto, por que este filme, cuidado por mim como uma obra-prima, não me impressionou o tanto quanto DOGVILLE ?

Coerentemente, a linguagem cinematográfica adotada em MANDERLAY é a mesma da obra anterior e as estratégias narrativas que tanto me surpreenderam no filme de 2003, desta vez, perderam a força da novidade: por mais que eu destacasse (racionalmente) a qualidade da obra, sentia, após o término da projeção, aquele gosto incômodo de “mais do mesmo”.

Sou apixonado pela Lidi.

Dois pesos e duas medidas

Nunca li um texto reclamando de Claude Monet, após ter desenvolvido um novo jeito de pintar, repetir o estilo de suas pinceladas em vários quadros. Nós, leigos em pintura, ficamos até animados e nos sentimos mais “cultos” ao reconhecermos a sua autoria em uma tela (ou reprodução de uma tela) que contemplamos pela primeira vez. O “mais do mesmo” nos permite, então, um gostoso júbilo e nos sentimos um pouquinho mais próximos de uma fraternidade artística usualmente restrita a especialistas.

Uma obra característica de Claude Monet

Mais do mesmo Claude Monet

Eu também poderia ter usado como exemplo o escultor Auguste Rodin ou vários outros nomes. Alguém, em sã consciência esperou de Frank Sinatra uma revolução a cada novo álbum lançado ? Ou que Glen Miller se “reinventasse” a cada nova gravação com a sua big band ? No entanto, todos valorizamos as diferentes fases de uma banda de rock como o U2 (leio, em muita crítica especializada, o uso da expressão “camaleônico” e não sei se o objetivo é realmente informar ao leitor que a banda somente apresentou “novas cores” por um instinto de sobrevivência ou se o termo – rigorosamente mal empregado –  procura denotar a grande  habilidade da banda para expandir as fronteiras musicais do rock).

Prezado Leitor, depois de seus esforços para adentrar no universo de um José Saramago e não se sentir perdido com a sua pontuação, com o seus diálogos, com o seu ritmo, podendo contar vantagem para os amigos de que você lê e compreende uma obra tão complexa e rica, você esperaria que o escritor mudasse a sua linguagem narrativa ?

Por outro lado, um novo álbum da banda Oasis, mesmo que repitisse com muita qualidade a “fórmula” consagrada em (What´s the Story) Morning Glory, de 1995, soaria cansativo. Apenas “mais do mesmo”.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Uma resposta

  1. Eduardo!
    Parabéns, gostei muito do seu artigo e adorei a comparação que você fez entre filmes que “repetem” a fórmula de sucesso e artistas de outros meios, comparação muito pertinente e que muitas vezes passa despercebida!

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