Considerações gerais sobre o diagnóstico psicológico esportivo

por                      Daniel Bartholomeu

Afonso Antonio Machado

José Maria Montiel

O efeito do esporte na vida das pessoas ou como essas se ajustam a ele são tópicos que não foram muito versados na comunidade psicológica por um longo período de tempo. A psicologia do esporte emergiu numa tentativa de compreender e optimizar o desempenho de atletas. Nesse contexto, o termo “psicologia do esporte” adquiriu dois significados um tanto diferentes, sendo que, um deles se refere a prática da psicologia por profissionais que se especializaram no trabalho com atletas em uma variedade de contextos desportivos; e o outro advém ao se tentar analisar o desenvolvimento da psicologia do esporte como disciplina acadêmica, comumente encontrada em universidades. Nessa última perspectiva enfatizam-se tanto os fatores que influenciam a participação no esporte e exercícios de forma geral como os efeitos psicológicos derivados dessa participação (Bartholomeu & colaboradores, 2009).

A prática cotidiana do psicólogo do esporte dentro de equipes desportivas apresenta algumas etapas bem delineadas que constituem, como um todo, o processo de preparação psicológica. Essa envolve basicamente atividades de psicodiagnóstico, planificação e intervenção psicológica, assim como reavaliação. Nesse contexto, as atividades de psicodiagnóstico esportivo ganham relevância, já que as características analisadas nesse primeiro momento envolverão rastreio de pontos fortes e fracos do ponto de vista do desempenho esportivo e psicológico dos atletas que possibilitarão delinear os planos de intervenção tanto psicológica como física ou tática. Especificamente do aspecto psicológico, o psicólogo do esporte dispõe de inúmeros instrumentos de avaliação de características psicossociais relevantes ao diagnóstico psicológico dos atletas, como testes de ansiedade, depressão, personalidade, entre outros.

De fato, poucas áreas no âmbito da Psicologia do esporte tem produzido mais debates do que a da avaliação psicológica e isso se deve ao fato de que muitos dos escores produzidos por testes psicológicos, por vezes não associam-se à performance esportiva. Algumas dessas limitações são evidenciadas em decorrência de problemas na construção e validação dos instrumentos desenvolvidos para a área. A maior parte dos métodos psicodiagnósticos estavam condicionados às particularidades e métodos da psicologia no geral. Assim, os primeiros instrumentos psicológicos empregados em contextos esportivos visavam uma avaliação clínica do mesmo, desconsiderando as peculiaridades que cada prática apresenta. Argumentava-se que a maior parte desses instrumentos explicavam uma parcela limitada da realidade e não teriam um poder preditivo sobre o comportamento atlético, principalmente em competição.

À parte dos estudos com testes, um processo de avaliação não é composto somente de testes psicológicos, mas de outros procedimentos de coleta de informações sobre a pessoa. Assim, uma das preocupações atuais reside no diagnóstico esportivo em que essas várias formas de avaliação devem ser sempre arroladas. Nesse contexto, o educador físico adquire papel fundamental já que dispõe de informações específicas da modalidade e dos atletas em situação de jogo, o que favorece um melhor diagnóstico específico. Psicólogos e educadores físicos devem trabalhar em conjunto para estabelecer um bom diagnóstico esportivo, principalmente em situações de transtornos mentais associados ao esporte em sua presença e mesmo intervenção. Assim, o foco não mais recai sobre o desempenho atlético simplesmente, mas sobre a saúde mental dentro do contexto esportivo.

Referências

Bartholomeu, D.; Machado, A.A.; Spigato, F.; Bartholomeu, L.L.; Cozza, H.P.;& Montiel, J.M. (2009). Traços de personalidade, ansiedade e depressão em jogadores de futebol. Revista brasileira de psicologia do esporte, 4(4).

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Inimigos públicos

Por Laís Semis

Fúria, rebeldia, cabelo espetado, roupas rasgadas, alfinetes e muitas alfinetadas. Iggy Pop tinha aberto a porta pra que bandas como os Pistols tomassem conta da cena musical, mesmo que brevemente. Embora a carreira deles tenha durado pouco mais do que um ano, os Inimigos Públicos número 1 escreveram sua própria cartilha e carimbaram seus nomes definitivamente. Em seu único álbum de estúdio (capa amarela na versão britânica e rosa na americana), eles chegaram a primeira posição nas paradas inglesas, porém como o single “God Save the Queen” fora considerada ofensivo, o número 1 aparecia seguido por um traço ou um espaço em branco no lugar do nome da música. A singela homenagem à Rainha considerava a realeza britânica fascista, turistas como forma de lucrar e não conseguia enxergar futuro nos sonhos da Inglaterra.

Johnny Rotten, Sid Vicious, Steve Jones e Paul Cook

Os feitos dos Sex Pistols para tão pouco tempo foram notáveis, foram 14 meses tacando terror aos bons modos e à instituições de nome. Os primeiros a dizer palavrão em rede nacional, expulsos de duas gravadoras (entre elas a EMI, a qual dedicaram a musica “EMI Unlimited Edition” e os versos), impedidos de tocar em diversos lugares devido à fama que levavam e perseguidos por barcos da polícia britânica no rio Tâmisa durante o Jubileu da Rainha, um show no barco Queen Elizabeth.

A famosa imagem de “God Save the Queen”

Os Pistols eram uma ameaça ambulante, tocando em bares sujos e que aos poucos ia conquistando espaço e se tornando um tumulto nacional. Embora a imagem dos Pistols esteja freqüentemente associada ao baixista Sid Vicious, a única contribuição de Sid foi a sua imagem. Ele podia ser a personificação autodestrutiva da banda; mas quando ele chegou todo o circo já estava montado, o álbum gravado, o nome estampado. Para os próprios integrantes, Vicious era visto como alguém que não servia para o mundo da música; Rotten declarou uma vez que Sid “não passava de um cabide que preenchia um espaço vazio no palco”.

No entanto, todo o crédito do sucesso do punk não se deve aos Pistols e sim ao produtor deles, Malcolm McLaren, o grande magnata manipulador marqueteiro que soube como ninguém criar personagens reais e fazer seus monstrinhos sair à solta aterrorizando toda a cidade e criando asas para chegar em outros países.

E a lenda cerca-se de ironia: Malcolm McLaren, produtor dos Sex Pistols que dizia ter a fórmula pra fazer uma banda dar certo, teve uma carreira musical frustrada; Lydon, que criticava o consumismo, agora é garoto propaganda da manteiga mais vendida do Reino Unido, a Country Life. O cúmulo, no entanto, foi Johnny Rotten, após ter falado mal de possivelmente todas as bandas, ter dito que adoraria trabalhar com Britney Spears. E, não, ele não estava sendo cínico.

Publish or perish

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Para comemorar os quarenta anos do lançamento de CIEN AÑOS DE SOLEDAD, a Real Academia Española – juntamente com a Asociación De Academias De La Lengua Española – publicou, em 2007, uma cuidadosa edição da novela do escritor colombiano Gabriel García Márquez e que teve o texto revisado pelo próprio autor.

Capa da edição comemorativa de CIEN AÑOS DE SOLEDAD

Um dos ensaios que acompanham a obra inaugura seus parágrafos com a citação de uma frase retirada da autobiografia de Gabriel García Márquez, intitulada VIVIR PARA CONTARLA :

“La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla.”

Para o ensaista Victor Garcia de La Concha, é significativo o fato desta autobiografia começar com a evocação de uma viagem a Arataca (uma pequena cidade situada no norte da Colômbia) empreendida por Gabriel García Márquez e sua mãe para vender a casa onde nascera e vivera, durante a sua infância, até a morte de seu avô. O choque entre as suas memórias de uma Arataca idealizada, paradisíaca e o povoado abandonado (“… no había un alma en las calles y los dos avanzaban com el sufrimiento creciente de ver cómo había pasado el tiempo por aquel entrañable lugar.”) marcariam para sempre o autor colombiano agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Ao encontrarem, finalmente, uma senhora que costurava em uma pequena “botica”, sua mãe reconheceria a esposa do farmacêutico e ambas permaneceriam abraçadas, chorando continuamente e sem trocar palavras, durante um longo período. Acompanhando este gesto, o escritor conta ter ficado “estremecido por la centidumbre de que aquel largo abrazo de lágrimas calladas era algo irreparable que estaba ocurriendo para siempre em mi propia vida”.

Gabriel García Márquez teria repetido muitas vezes que, após ter presenciado este longo choro sem palavras, surgiu-lhe a idéia de contar por escrito “todo el pasado de aquel episodio”. Nasceria também ali o universo mágico de Macondo a ser retratado em CIEN AÑOS DE SOLEDAD, compreendidas através de uma epifania entre lágrimas as realidades distintas que a memória pode nos apresentar de um mesmo fato, de um mesmo lugar, das mesmas pessoas.

Macondo - oil on canvas- 38" X 42" - pintura de Victor Morgado

Ainda segundo o ensaio, Gabriel García Márquez já vinha desenvolvendo um romance baseado em suas memórias de infância e que se chamaria LA CASA. No entanto, a realidade encontrada em Arataca o faria perceber como falso aquilo que vinha escrevendo sob uma pauta realista: a partir daquele 1950, contando o autor vinte e três anos de idade, foram muitos os seus caminhos em busca do tom mais adequedo para contar “todo el pasado de aquel episodio”. Deste modo, o lançamento de CIEN AÑOS DE SOLEDAD ocorreria somente em 1967 e as palavras do autor, citadas por Victor Garcia de La Concha, nos inspiram a buscar a chave (a clave) para as nossas próprias composições.

“Tuve que vivir veinte años y escribir cuatro libros de apredizaje para descubrir que la solución estaba en los orígenes mismos del problema: había que contar el cuento, simplemente, como lo contaban los abuelos. Es decir en un tono impertérrito, con una serenidad a toda prueba que no se alteraba aunque se le estuviera cargando el mundo encima, y sin poner en duda en ningún momento lo que estaban contando, así fuera lo más frívolo o lo más truculento, como si hubieran sabido aquellos viejos que en literatura no hay nada más convincente que la propia convicción.”

Quanta poesia e quanta prosa perecem regularmente, vítimas de uns pudores literários que impedem a publicação de nossas memórias ? Precisamos recuperar esta nossa habilidade ancestral para contar estórias, tornando-as verossímeis a partir da nossa própia convicção e libertando-as o quanto for necessário da realidade dos fatos.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

O Chefão

por Laís Semis

Não é difícil manter empatia pela figura serena e amigável do cara mais politicamente correto que o rock já teve o prazer de batizar. Há mais de dez anos que seu nome está no Rock’n’Roll Hall Of Fame, com sua voz rouca, o cara que aprendeu a fazer sua guitarra a falar foi apelidado de “The Boss” pelos americanos.

Capa do disco “Born to Run”, de Bruce Springsteen

Bruce Springsteen, agora com 61 anos, três filhos, 19 álbuns, adora sair em turnê e já faz uns anos que divide seu tempo entra a música e a família. Foi um garoto de infância solitária, sem muitos amigos, educado numa escola católica, criado numa família de italianos e irlandeses, Bruce pegou numa guitarra pela primeira vez aos nove anos (embora só viesse a tocá-la quatro anos mais tarde), na mesma época em Elvis Presley o deixou fascinado ao aparecer no programa Ed Sullivan’s Show.

Em 76 tentou se encontrar pessoalmente com seu ídolo, um ano após ter lançado o “Born to Run”, seu terceiro álbum, mas foi em vão.  Bruce pulou o muro de Graceland para bater à porta de Elvis Presley, mas ele não estava lá; então foi conduzido por seus seguranças para fora da propriedade. O encontro com Elvis nunca aconteceu e deve ser por isso que Bruce se desdobra tanto para atender a todos que o procuram para um autógrafo, um agradecimento, uma troca de palavras.

                                                             (“Thunder Road”)

Ele foi acusado de não fazer rock de verdade por Lemmy Kilmister, do Motörhead, mas para críticos como Jon Landau, ele é a demonstração mais pura do espírito do rock.

O domínio que ele mantém há quase 40 anos sobre o público é uma relação de respeito e de grande adoração. Para eles, Bruce é aquele mesmo homem simples que caminha pelas Ruas da Filadélfia (exatamente como no clipe), um visionário, um romântico sincero, cheio de energia e, o mais importante de tudo, honesto consigo mesmo e com suas canções.

                                                         (“Streets of Philadelphia”)

Paulicéia desvairada

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Embora tenha recebido uma educação escolar de altíssimo nível, eu acredito que o voto de qualquer pessoa em qualquer lugar do Brasil é tão importante quanto o meu. Eu conheço inúmeras pessoas que não tiveram a mesma oportunidade que eu tive e que, no entanto, são extremamente sábias. Também conheço inúmeros bacharéis, engenheiros e doutores que constantemente tomam decisões equivocadas em suas vidas.

Estou envergonhado por ser paulista

Eu repudio o preconceito bastante cultivado por tantas pessoas que distinguem os eleitores entre os de “primeira classe” e os de “segunda classe”. Para mim, o sufrágio universal é um dos modos bastante eficientes para aferir as esperanças de uma nação. No entanto, aqueles que se consideram a “elite da cidadania” desejam uma democracia sem povo, sem o povo brasileiro por inteiro.

Conforme indiquei no artigo O INFERNO SÃO OS OUTROS, publicado  logo abaixo, o resultado das eleições para a Presidência da República não seria alterado mesmo que o nosso apartheid paulista lograsse excluir os votos de nortistas e nordestinos.

Um dos legados deste processo eleitoral foi dar visibilidade a alguns preconceitos fortemente arraigados na região Sudeste do nosso país.

O filme que lhes indico neste post  fala por si mesmo.

Dói muito, mas é importante assistí-lo.

Os autores destes crimes deixaram nome, sobrenome, IP, foto.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
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O inferno são os outros

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Eu seria muito mais feliz se me coubesse a oportunidade de conhecer melhor as pessoas que me cercam, de saber quais são os seus sonhos. Eu gostaria muito de ler mensagens escritas por elas com as suas próprias palavras, cada um com o seu jeito próprio de conversar. Ao contrário, nestas eleições, eu recebi uma quantidade exagerada de mensagens do tipo spam, muitas com informações duvidosas, algumas até levianas. Eu poderia ter aprendido muito com todos que me escrevessem algo do tipo:

“Eu prefiro este programa de governo porque acredito nisso, nisso, naquilo… Eu não gosto daquele outro programa porque não concordo com isso, isso e aquilo… Para mim, o mundo deveria ser desse jeito… Eu leio o mundo através de tais lentes… Eu acredito que tal candidatura representa uma maior probabilidade de os meus sonhos se concretizarem…”

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Todos nós conhecemos bem as nossas famílias, os clubes para os quais torcemos, as igrejas que frequentamos, as empresas em que trabalhamos, os condomínios em que vivemos. Todos nós temos o nosso “lado negro”. Todas as instituições têm os seus “aloprados”. Todos os partidos políticos também os têm. Assim, considero bastante hipócrita um certo “puritanismo” que determina – parafraseando Sartre – que “o inferno sempre e somente são os outros”.

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O Sudeste elegeu Dilma

Ao contrário dos preconceitos arraigados em São Paulo, não foram o Norte e o Nordeste que elegeram a candidata petista. Se fossem excluídos todos os votos destas regiões, o vencedor da disputa ainda seria o mesmo. Foram os votos do Sudeste para Dilma que compensaram, com alguma sobra a seu favor, as suas derrotas no Sul e no Centro-Oeste do Brasil.

Confiram os dados do portal G1, da Rede Globo

(http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/11/mesmo-sem-os-eleitores-do-norte-e-do-nordeste-dilma-venceria-serra.html):

fonte: G1 - o portal de notícias da Globo (www.g1.globo.com)

Uma análise mais apurada dos dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi realizada pelo economista Fernando Nogueira da Costa, que é Professor do Instituto de Economia da UNICAMP:

(http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/10/31/mapa-eleitoral-da-vitoria-de-dilma/)

“No Estado de maior colégio eleitoral, São Paulo, a diferença a favor do Serra foi de 1.846.036 votos; no segundo maior, Minas Gerais, a diferença a favor da Dilma (1.797.831) praticamente já compensou a votação na suposta base eleitoral do adversário. No Rio Grande do Sul, Dilma quase empatou, pois a diferença a favor do Serra foi de apenas 119.588 votos. Somada às diferenças serristas em Santa Catarina (473.909) e Paraná (633.130), a Região Sul toda somou apenas 1.226.627 votos a favor de Serra. A diferença a favor da Dilma no Estado do Rio (1.710.111 votos) já superou em cerca de ½ milhão de votos aquela soma.”

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
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