Anúncio de refrigerantes

por Laís Semis

“Quem me dera, ao menos uma vez,

Explicar o que ninguém consegue entender:

Que o que aconteceu ainda está por vir

E o futuro não é mais como era antigamente.”

Nem todos os hinos são cantados e admirados unanimemente, independente ao que façam referência. Mas todos eles atraem legiões compostas por uma nação, fanáticos futebolísticos ou ouvintes apaixonados. Nesse caso, contudo, no calor do concreto e do cerrado da capital, onde se encontravam, passavam longe de integrar uma legião além do que se auto-intitulavam.

Eram apenas garotos matando o tempo com os três acordes da cartilha punk rock que seguiam e deixando para trás seus futuros diplomáticos e acadêmicos para se aventurar nos resquícios da explosão punk dos anos 70 e se abrindo para aqueles melodramáticos 80 banhados à Smiths.

Houve um hino legionário em especial que foi parar além das bocas e coração de fãs, se tornou frase repetida e estampada freqüentemente por outros, “Pais e Filhos” é uma das músicas que vem atravessando a Legião Urbana através dos anos.

Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá em foto de promoção do álbum “As Quatro Estações”

A Legião é uma vida em discografia que, disco a disco, vai se modificando e se construindo com um pouco do que se era e muito do que está acontecendo até A Tempestade ou O Livro dos Dias, em que o fim se aproxima. A revolta, o amor impossível, os sonhos são trocados pelo ceticismo, pelo apego ao momento, já que ao futuro cinza, foi atribuído cautela.

Quando a tristeza é sempre ponto de partida

“A Tempestade” também é o título de um livro de autoria de William Shakespeare, uma história tão triste quanto o disco ecoa.  Extremamente pessimista, o álbum abre com os (seguintes) versos: “vamos falar de pesticidas e de tragédias radioativas” e continua “preste atenção ao que eles dizem, ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira e a mentira é salvação”.

A desilusão nele é total; da vida, do mundo, do trabalho e, principalmente, do amor – sentimento que depois de tantos anos tentando dar certo acaba se conformando, na serenidade da idade, em não existir em formas mais intensas e que ao se acabar está apenas cumprindo um ciclo natural, um sentimento domado pela razão.

Cheio de ressentimento, mágoas e submerso a uma tristeza sem fim, traçando uma comparação sobre o que foi e parece estar perdido num presente vazio e mesmo quando tenta se mostrar com um pouco de fé, soa irônico. É só na 8ª faixa, “Soul Parsifal”, que A Tempestade é tomada por uma força de lutar maior que as circunstâncias.

Renato Russo no palco

Na medida em que o disco vai tocando, vai se tornando mais pessoal, com a coragem que ganha lá pela sua metade, a dor se transforma num ataque, talvez num escudo contra o bombardeio de sentimentos negativos das próprias palavras e notas.

O disco termina com “O Livro dos Dias”, talvez mais conformado, desmascarando, encarando e desafiando a tristeza, “este é o livro do destino, este é o livro dos nossos dias, este é o dia de nossos amores”.  É claro que existiram tantas outras canções tão angustiantes em outros álbuns, mas elas nunca estiveram tão intimamente ligadas num único disco.

Um místico (até mesmo as personagens de suas músicas eram movidas pela influência de astros, João de Santo Cristo de “Faroeste Caboclo” era de Peixes com ascendente em Escorpião e Monica de “Eduardo e Monica” era de Leão), um Renato Russo politizado (“nas favelas, no Senado, sujeita pra todo lado, ninguém respeita a Constituição”), revolucionário (com sua “Geração Coca-Cola”), crítico (quem não reconhece a estupidez, a covardia, a intolerância, a falta de justiça citadas em “Perfeição”?), solitário (“Vento no Litoral” e toda sua melancolia amorosa), arrasado (vide “Os Barcos”), romântico (o que seria do disco “Dois” sem “Acrilic on Canvas”, “Quase sem Querer”, “Andrea Doria” e mesmo “Eduardo e Monica”?), renascido (afinal “Índios” tem muito sobre a vida que deve ser revista), liberto (como em “Metal Contra as Nuvens”). Foram canções e discos que representavam sentimentos extremosos. Mais ou menos, essa foi a discografia, usando as palavras do poema “Lembrança de Morrer” de Álvares de Azevedo, de quem “foi poeta, sonhou e amou na vida”.

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