Vida Roubada

por Laís Semis

“You need cooling

Baby, I’m not fooling”.

Memphis, 29 de maio de 1997. Rio Wolf. Os versos do Led Zepellin continuam a ecoar se misturando com a voz do Mystery White Boy.

“Way down inside

Honey, you need it

I’m gonna give you my love

I’m gonna give you my love”

Ele tinha um encontro marcado com a sua banda para as gravações do novo disco. Decidiu dar uma pequena parada antes de ir para o estúdio, perdido próximo do afluente do rio Mississipi, ele decide entrar de roupas e botas para nadar.

“Wanna whole lotta love

Wanna whole lotta love

Wanna whole lotta love

Wanna whole lotta love.”

Agora música nenhuma não toca mais. O rádio foi levado para longe por Foti, que o acompanhava naquela parada pelo Wolf. E nenhuma voz pode ser ouvida além de Foti invocando em vão o nome do Misterioso Garoto Branco.

Cinco dias depois daquela tarde em que cantou “Whole Lotta Love”, do Led Zepellin enquanto nadava, o corpo do cantor é encontrado próximo a nascente do Mississipi. Afogamento, 31 anos, músicas cheias de alma, um sorriso meio tímido, filho de mãe pianista e violoncelista e pai o jazzista-folk Tim Buckley.

Talvez você nunca tenha ouvido Jeff Buckley na MTV, rádios ou qualquer outro lugar em que sua exibição de hits seria comum.  Mas, definitivamente, você já deve ter topado com algumas de suas canções por aí, em outras vozes, porque de fãs famosos, mesmo que alguns nunca tenham regravado suas músicas, Buckley tem aos montes. Jimmy Page e Robert Plant, do Led, o beatle Paul McCartney, Morrissey, dos Smiths e o vocalista do U2, Bono Vox são alguns nomes que vigoram nessa lista.

Esse Jeff Buckley desconhecido do grande público agora terá sua chance de ser reconhecido por toda sua poesia com efeitos sinestésicos. O esquecimento está prestes a acabar. Pelo menos é uma das promessas que o longa sobre o músico deve levar a frente. Há grandes chances do cantor ser representado por James Franco (“Homem Aranha” e “Comer, Rezar e Amar”), o que também contribuiria para maior visibilidade do filme e, conseqüentemente, da carreira e trabalho de Buckley.

James Franco (à esquerda) é a principal aposta para o interprete de Jeff Buckley (à direita) no longa pela semelhança física com o cantor

No caso desse filme realmente sair, Jeff Buckley finalmente alcançará o reconhecimento merecido do público como autor e cantor de um álbum cheio de magia sentimental como é, em toda sua graça, “Grace” (1996). E quem sabe, com um pouco mais de paciência e busca, também não venha o louvor merecido ao seu emocionante trabalho póstumo “Sketches for My Sweetheart the Drunk” (1998). Já que não é esperado que tudo que foi ofuscado durante esses anos, venha à tona de uma vez, principalmente, levando em conta que Jeff Buckley é o tipo de música para se conhecer aos poucos, para poder saborear tudo o que ela tem a oferecer. O que talvez explique o fato de “Grace” não ter vendido tanto quanto os produtores haviam imaginado.

“Grace” pode até ser sobre tudo o que ele gostaria de enterrar e esquecer para sempre. Mas, com certeza, é um daqueles álbuns que jamais devem ser enterrados no esquecimento ou passarem despercebidos. Já é tempo de Jeff Buckley ser descoberto pelas multidões.

2 Respostas

  1. Olá, Laís !

    O seu artigo sobre o Jeff Buckley é o primeiro “blues em prosa” que leio. Ficou uma obra-prima. Parabéns !!!

    Eduardo Godoi

  2. Obrigada, Eduardo!

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