Personalidade e o esporte: modelo dos cinco grandes fatores

por Daniel Bartholomeu

José Maria Montiel

Afonso Antonio Machado

Uma das principais discussões no que concerne a aplicação de testes de personalidade em atletas tem sido a questão da validade das medidas obtidas no contexto esportivo. Rushall (1975) e Martens (1975) ressaltam que uma das objeções feitas consiste na seleção indiscriminada da população de atletas que não permite obter validade para um grupo específico, dada as diferenças entre os tipos de esportes. Além disso, destacam que a maior parte das pesquisas nessa área apresentam problemas quanto ao tratamento estatístico dos dados, bem como às suas interpretações. Essa questão já vem sendo atentada há mais de vinte anos (Cratty, 1984).

Uma das soluções apontadas para esse problema é sugerida por Morgan (1978) ao mencionar a necessidade de que outras provas sejam aplicadas juntamente com as de personalidade, com vistas a fornecer uma maior compreensão dos atletas em questão. Ao lado disso, devem ser examinados também variáveis relativas aos aspectos emocionais e sociais envolvidos em cada modalidade esportiva, possibilitando, assim, combinar dados de personalidade com as diversas “tensões esportivas específicas”.

Dentre os inúmeros instrumentos disponíveis para a avaliação da personalidade estão o MMPI (Inventário Multifásico de Personalidade), o 16 PF de Cattell, que tem sido muito utilizado no contexto esportivo, entre outros. Na atualidade, uma nova proposta para a mensuração da personalidade têm emergido que é a dos Cinco Grandes Fatores (CGF). Esse modelo descreve dimensões básicas da personalidade e foram constituídos com base na aplicação de inúmeros instrumentos como o 16 PF, MMPI, escala de necessidades de Murray, entre outros. Esses testes, ao serem submetidos a análises fatoriais fornecem soluções similares com os CGF, independentemente da teoria que embasa esses instrumentos. (McCrae & Costa, 1989; Digman, 1990; McAdams, 1992; Briggs, 1992, Hutz e colaboradores, 1998).

Esse modelo e não apresenta uma explicação teórica a priori dos motivos de serem cinco os fatores e, embora hajam algumas divergências quanto à denominação dos mesmos, ou das características em cada dimensão, não representam problemas metodológicos ou epistemológicos. Alguns autores como Goldberg (1981), Hogan (1983) estudaram as soluções fatoriais encontradas entre os testes de personalidade e contribuíram para o entendimento atual dos fatores para explicar a personalidade. Nesse contexto, os fatores seriam: Extroversão/Introversão (Fator I), pessoas com altas pontuações nesse fator seriam caracterizadas como despreocupadas, impulsivas, espontâneas, aventureiras, entre outros aspectos. Esse fator é correspondente ao fator I da escala de Eysenck (1970) bem como ao fator “Atividade Social” do sistema de Guilford (Hutz & colaboradores, 1998).

Por sua vez, o Segundo fator é o Nível de Socialização, e suas tendências são agradabilidade social, calor humano, doçura, altruismo, cuidado, amor e apoio emocional, sendo que seu oposto é caracterizado por hostilidade, indiferença aos demais, egoísmo e inveja. Esse fator abrange alguns itens da escala de Psicoticismo de Eysenck em meados de 1970. A esse respeito, Digman (1990) destaca que a quase totalidade da variância desse fator de Eysenck estaria explicada nos fatores II e III dos CGF (Hutz & colaboradores, 1998).

O terceiro fator é a Escrupulosidade e pessoas com predominância nesse traço caracterizam-se como honestas, sensíveis afetivamente, preocupadas com os outros, responsáveis, e pessoas em seu oposto apresentariam irresponsabilidade, negligencia, dureza e insensibilidade (Hutz & colaboradores, 1998). O Fator IV corresponde ao Neuroticismo ou Estabilidade Emocional, abrange aspectos como afeto positivo e negativo, instabilidade emocional, ansiedade, depressão, melancolia, tristeza, nervosismo e temor. Pessoas em seu oposto seriam pouco impulsivas e recuperariam o autocontrole com facilidade (Hutz e colaboradores, 1998).

Finalmente, o Fator V é a Abertura a Experiência e envolve fantasia, imaginação, abertura para novas experiências, flexibilidade de pensamento. Esse fator pode ainda ser denominado Intelecto, já que também é caracterizado pela percepção que a pessoa tem de sua capacidade (Hutz & colaboradores, 1998). De acordo com alguns autores em pesquisas realizadas nos últimos 10 anos os estudo têm demonstrado a solidez desses fatores. Assim, esse modelo tem sido considerado por inúmeros autores como o melhor na atualidade para a dsecrição da personalidade. Ainda, sugere-se que se tratam de dimensões básicas da personalidade, desejáveis de se obter em quaisquer pessoas com que se vá interagir (McCrae & John, 1992; McCrae, Costa, & Piedmont, 1993; Huttz, 1998; McAdams, 1992).

Referências

Briggs, S. R. (1992). Assessing the Five-Factor Model of personality description. Journal of Personality, 60, 253-293.

Cratty, B.J. (1984). Psychology in Contemporary Sport. Englewood Cliffs: Prentice-Hall.

Digman, J. M. (1990). Personality structure: The emergence of the Five-Factor Model. Annual Review of Psychology, 41, 417-440.

Goldberg, L. R. (1981). Language and individual differences: The search for universals in personality lexicons. Review of Personality and Social Psychology, 2, 141-165.

Hogan, R. (1983). Socioanalytic theory of personality. Em M. M. Page (Ed.), 1982 Nebraska Symposium on Motivation: Personality – Current Theory and Research (pp. 55-89). Lincoln, NE: University of Nebraska Press.

Hutz, C.S.; Nunes, C.H.; Silveira, A.D.; Serra, J.; Anton, M.; & Wieczorek, L.S. (1998). O desenvolvimento de marcadores para a avaliação da personalidade no modelo dos cinco grandes fatores. Psicologia Reflexão e Crítica,

Martens, R. (1975). Social psychology and physical activity. New York: Harper Row.

McAdams, D. P. (1992). The Five-factor Model in personality: A critical appraisal. Journal of Personality, 60, 329-361.

McCrae, R. R. & Costa, P. T. (1989). More reasons to adopt the Five-Factor Model. American Psychologist, 44, 451-452.

McCrae, R. R. & John, O. P. (1992). An introduction to the Five-Factor Model and its applications. Jounal of Personality, 60, 175-216.

McCrae, R. R., Costa, P. T., & Piedmont, R. L. (1993). Folk concepts, natural language, and psychological constructs: The California Psychological Inventory and the Five-Factor Model. Journal of Personality, 61, 1-26.

Morgan, W.P. (1978). Sport personology: the credulous-skeptical argument in perspective. Em W.F.Straub, Sport psychology, An analysis of athletic behavior. Movement Publications.

Rushall, B.S. (1975). Psychodynamics and personality in sport: Status and values. Em H.T.A. Whiting (Ed.), Readings in sport psychology. London: Lepus.

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