Coréia: uma nação dividida

por Luiz Carlos Silva

Tendo em vista a Coréia encontrar-se sob dominação japonesa (colônia do Japão), oficialmente desde 1910, Estados Unidos, Reino Unido e República da China haviam prometido uma Coréia livre e independente através da Declaração do Cairo em novembro de 1943 e, também, na Declaração de Potsdam de julho de 1945, com os chamados “Três Grandes”: EUA, União Soviética e Reino Unido.

Winston Churchill, Harry Truman e Joseph Stalin, Potsdam-Alemanha julho de 1945

As tropas soviéticas invadiram o Estado Manchukuo, (um estado fantoche na Manchúria, invadida em 1931 pelos japoneses) entre 8 e 9 de agosto de 1945 na chamada “Operação Tempestade de Agosto”, comandada pelo Marechal Alexandr Vasilevsky (1895-1977) e posteriormente penetraram na região norte da Coréia. As tropas norte-americanas entraram na península pelo Porto de Inchon, em 8 de setembro de 1945, comandadas pelo famoso Tenente General (general de 3 estrelas) John Reed Hodge (1893-1963) comandante do 10º Exército dos Estados Unidos.

Tanto os norte-americanos quanto os soviéticos estabeleceram um regime militar nas áreas que ocupavam respectivamente, em vez de permitirem que os coreanos naturalmente governassem seu próprio país, mesmo depois das guarnições japonesas na Coréia terem sido desarmadas.

A absoluta maioria dos coreanos quando souberam da rendição de seus opressores japoneses aos aliados, através da famosa mensagem de rádio lida pelo próprio imperador Hirohito (1901-1989), em15 de agosto de 1945, obviamente ficaram radiantes, tamanha a felicidade, contentamento e alegria e, certamente, contando com a automática, total, irrestrita e imediata independência de sua pátria mãe. É importante lembrar que a capitulação nipônica foi ocasionada como conseqüência das duas armas nucleares lançadas pelos Estados Unidos em Hiroshima 06/08/45 (Urânio) e em Nagasaki 09/08/45 (Plutônio). É importante lembrar que os Estados Unidos é o único país na história da humanidade a ter lançado armas nucleares em seres humanos.

Entretanto, o júbilo nacional dos coreanos muito cedo se transformou em desapontamento, indignação e revolta, quando a divisão territorial ao longo do paralelo 38 foi anunciada. E vale a pena lembrar que a iniciativa de dividir a Coréia foi tomada pelo 33º Presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman (1884-197). Em 11 de Agosto de 1945 Harry Truman ordenou ao seu Departamento de Guerra, através da famosa Ordem do Dia nº. 1: organizar, preparar, montar, ou seja, redigir formalmente o documento de rendição das forças japonesas de ocupação. Esta tarefa foi atribuída a dois jovens oficiais militares, o Cel. Charles Hartweell Bonesteel (1909-1977) que chegou ao posto de general de 4 estrelas ainda na ativa, e o Cel. Dean Rusk (1909-1994) posteriormente Secretário de Estado nas gestões dos Presidentes: John F. Kennedy (1917-1963) e Lindon B. Johnson (1908-1973). Nesta ordem, estava incluída a tarefa de dividir a península em duas zonas distintas: os dois oficiais escolheram, então, o paralelo 38 como divisa. Joseph Stalin (1879-1953) logo foi consultado e concordou.

No dia 2 de setembro de 1945, a rendição foi formalmente assinada por oficiais japoneses e assinada e recebida pelo lendário General Douglas Mac Arthur (1880-1964) a bordo do encouraçado Missouri, dos Estados Unidos, na baía de Tóquio.

A verdadeira causa da divisão nunca foi totalmente esclarecida, muito embora o resultado verdadeiro tenha sido o de permitir que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ocupasse a parte setentrional da nação. Lembrando que a União Soviética e os Estados Unidos tinham sido aliados na 2ª Guerra e levando em conta o fato de serem nações antagônicas em relação a seus específicos sistemas e regimes político, ideológico, doutrinário, econômico e social, ocasionando assim uma total, recíproca falta de confiança entre os mesmos, ou seja, eles achavam que se um abandonasse sua respectiva parte ocupada o outro aproveitaria tal oportunidade e imediatamente ocuparia toda a península.

Considerada como a etnia mais homogênea e distinta, uma só tradição cultural, os coreanos possuem a mesma história de milhares de anos, mesmo idioma (Ural-Altaico), o mesmo alfabeto Hangul, mesma característica física, ou seja, o povo coreano tem um forte senso de independência, diligência, patriotismo e solidariedade, ou seja, irmãos de sangue.

Há 10 milhões de famílias separadas, sem qualquer contato desde a separação 1945, formalizada em 1948 e a guerra fratricida (1950-1953), uma das maiores tragédias na face da terra, que nem mesmo Franz Kafka (1883-1924), poderia imaginar. São milhões de famílias: irmãos, filhos, sobrinhos, netos, primos, amigos, que nunca mais puderam se ver ou comunicar. Por exemplo, na divisão que aconteceu na Alemanha e Vietnã (hoje já reunificados), as pessoas, naqueles tempos, em muitos momentos podiam pelo menos trocar cartas. Na Coréia, até a troca de correspondência é vetada. E, infelizmente, nestes mais de 50 anos, dezenas de milhares destes familiares coreanos separados já morreram sem nenhum contato desde a separação.

A comissão conjunta, composta de representantes das forças de ocupação: os norte-americanos no sul e os soviéticos no norte foi estabelecida no início de 1946, segundo o acordo entre os Ministros do Exterior da América, Rússia e Inglaterra, firmado em 27 de novembro de 1945, em Moscou, justamente para formar um governo provisório na Coréia. O governo provisório se e quando criado, deveria incluir representantes de organizações sociais e políticas da Coréia sob uma administração por um período máximo de 5 anos, e supervisionado pelos Estados Unidos, Grã Betanha e China.

A comissão conjunta soviético-americana foi encarregada de encontrar uma fórmula para organizar um governo provisório e preparar o caminho para o estabelecimento de um governo unificado e democrático em toda a Coréia. Ela se reuniu em Pyongyang e Seul em 1946 e 1947, mas não chegou a nenhum acordo. Além disto, a absoluta maioria do povo coreano não queria administração alguma e exigiu a total, irrestrita e imediata independência para sua pátria.

Quando os esforços conjuntos soviético-americano não conseguiram qualquer resultado tangível, a questão coreana foi levada para a Assembléia geral das Nações Unidas que, em setembro de 1947, aprovou uma resolução para efetuar eleições gerais na Coréia, a fim de lhe assegurar imediata independência e unificação.

A comissão temporária da ONU para assuntos coreanos foi formada em 1947 e enviada para Seul, no ano seguinte para preparar e supervisionar as eleições. Entretanto, os soviéticos e seus seguidores no norte se recusaram a cumprir a resolução das Nações Unidas, boicotando a entrada dos membros da Comissão na parte norte da Coréia.

No lado sul, Syng Man Rhee (1875-1965) que era metodista, falava inglês fluentemente, considerado o primeiro coreano a obter doutorado em Princeton, foi escolhido pelo governo dos Estados Unidos da América para ser o líder da parte sul da península: levado secretamente para Seul em 1945, ele ajudou a construir o que se tornaria uma máquina política, cruel, devastadora e implacável.

Inúmeros coreanos moderados foram assassinados, torturados e encarcerados Além de cometer vários massacres contra o pacato povo coreano, ele foi eleito Presidente da República da Coréia, exatamente nas eleições realizadas em 10 de Maio de 1948, tomando posse exatamente em 15 de Agosto de 1948 justamente para coincidir com o aniversário da libertação do jugo japonês. A crueldade e corrupção de seu regime continuaram durante os 3 anos da Guerra da Coréia, quando a Coréia do Norte invadiu a do Sul em 25 de Junho de 1950. Encerrado o conflito exatamente em 27 de Julho de 1953, Rhee continuou perseguindo seus opositores e venceu 3 eleições de forma fraudulenta. Em 1960, o governo dos Estados Unidos, cansado das tantas atrocidades de Rhee, retirou-lhe o apoio levando-o a renunciar exatamente em 26 de Abril de 1960. Syng Man Rhee foi então exilado no Havaí, onde morreu em Honolulu em 19 de Julho de 1965, aos 90 anos de idade.

Na parte norte, Kim iL Sung (1912-1994), que recebera treinamento militar na União Soviética, foi eleito Secretário Geral do Comitê Central do Partido Trabalhista exatamente em 03.09.1948 e em 09.09.1948 foi formalizada a República Democrática Popular da Coréia. Neste momento, Kim iL Sung torna-se o 1º Ministro, sendo adotado um regime totalitário stalinista. Em 28/12/1972, Kim é eleito Presidente da República Democrática Popular da Coréia. O regime foi marcado por uma mistura de fantasia, ditadura, tirania e culto a personalidade de Kim (aclamado pelos norte-coreanos como Grande Líder). Ele transformou o país e o povo nos mais isolados e afastados da realidade mundial, sendo raros os turistas que visitam o país e há pouco intercambio comercial com o exterior.

Após o épico encontro dos Presidentes Kim, ocorrido na península coreana em Pyongyang justamente nos dia 13 a 15 de junho de 2000, quando então Kim Dae Jung (1925-2009), gestão1998 a 2003, vulgo D.J. (apelidado de Mandela da Ásia por sua incansável e intensa atuação  na defesa dos direitos humanos, pela democracia, paz e também pela reconciliação entre os dois lados), encontrou-se com Kim iL Jong,  ocorreram muito mais de uma dezena de encontros de 3 dias, entre grupos de 100, 200, 400 familiares de cada lado, cada vez, ou seja, de famílias separadas, sem nenhum contato há 40, 45, 50, 55, 60 anos, em encontros permitidos oficialmente em: Seul, Pyongyang e Monte Gum Gang. A iniciativa do encontro de Junho de 2000, e também a intensa e incansável dedicação de Kim Dae Jung na luta pelos direitos humanos, pela democracia, paz e pela reconciliação entre os 2 lados, mais a permissão dos encontros (de familiares) levou o próprio Jung a conquistar o prêmio Nobel da Paz do ano 2000.

2 Respostas

  1. […] Leitores, quanto mais eu aprendo sobre a história das Coréias e sobre a história do Taekwon-Do ITF / Taekwondo WTF, mais eu considero a arte marcial que tanto […]

  2. Sobre a Guerra da Coréia, vale à pena ler, também, o artigo “O terror vindo dos Céus”, do autor Luiz Carlos Silva em:

    https://tkdvida.wordpress.com/2012/01/09/o-terror-vindo-dos-ceus/

    EQUIPE TAEKWON-DO, ARTE E VIDA

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