Prefiro os nossos sambistas

Por Laís Semis

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Ela é a dona dos cabelos cor-de-abóbora que Chico Buarque poetizou em seu último disco, intitulado simplesmente “Chico”. Foi pelo seu interesse na música e teatro, que a curitibana decidiu fazer do Rio de Janeiro o atual cenário de sua vida. E antes de engatar a carreira musical, Thais Gulin participou de várias peças de teatro – duas atividades que a atraem desde a infância quando inventava suas apresentações.

Mas musa de Chico, não só inspira canções ou dá o ar da voz em “Se Eu Soubesse”, presente nos álbuns de ambos. Seu primeiro trabalho veio em 2007, quando foi tida como uma das revelações do ano pelo homônimo “Thais Gulin”. Apesar de soar muito próprio, apenas 2 das 12 canções continham um dedo de composição da cantora, já “ÔÔÔôôÔôÔ” (2011), nome que leva seu segundo disco, além de trazer uma mostra maior de suas próprias composições, traz mais parcerias de calibre da música brasileira: Tom Zé, Adriana Calcanhotto, Ana Carolina e Chico.

E apesar da doçura da voz e pessoa, Thaís Gulin, a ousadia das escolhas das músicas que compõe mostra a personalidade que se esconde atrás da imagem. Ousadia também de quem escolhe os grandes para interpretar e telefonar pedindo uma inédita para que ela lance em um álbum seu – que embora sejam de renome, não deixam de olhar pra frente.

Depois de conquistar os palcos, as críticas e Chico Buarque, Thais diz que seu sonho é simplesmente fazer turnês por porões de cidades do interior, sentindo mais próxima a energia das pessoas.

Conheça mais do “ôÔÔôôÔôÔ”:

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1. ôÔÔôôÔôÔ (Thaís Gulin): o disco já abre em ritmo de samba, falando em cair na avenida e atropelar os enredos, tendo o Carnaval do Rio de Janeiro como cenário, Thaís mostra que independente do que acontecer, não vai deixar abalar a folia.

2. Água (Kassin): apesar da simplicidade da letra que se limita a um leve suporte emocional muito mais consolador à própria do que ao outro (“eu vou ficar aqui torcendo pra tudo melhorar, juro que vou e sei, vai passar o seu rancor”), a faixa aposta mais no ritmo e se deixa levar pelo sambinha.

3. Horas cariocas (Thaís Gulin): um pouquinho de melancolia pra inspirar poesia de coração sofrido. Certas partes também poderiam sair de uma caixinha de música. “Na confusão das horas cariocas, vai saber, de um cabaré nas docas, vai saber, se a noite somos todas pardas”.

chico4. Se eu soubesse (Chico Buarque): num dueto com o próprio Chico Buarque, eles confessam o romance nessa canção escrita para Thaís cantar. A faixa também faz parte do disco “Chico”, último lançamento do compositor.

5. Revendo amigos (Jards Macalé / Waly Salomão): sob um leve baião que se deixou camuflar pelas guitarras numa mistura que funciona, “Revendo amigos” bate em uma das principais características do álbum até pelos tantos compositores presentes: a abertura pra contemplar diferentes ritmos e histórias.

6. Quantas bocas (Thaís Gulin / Ana Carolina / Kassin): levada melancólica de quem diante de uma suposta traição, retoma sentimentos, se deixando confundir. “Se eu tivesse alguma voz cantava pra você ficar aqui, diz com quantas bocas, bocas belas, lindas me abandonas […] E na hora hora que você me procurar de novo, talvez eu possa te querer pra sempre ou te esquecer de vez”.

7. The glory hole (Thaís Gulin / Alê Siqueira / Kassin): rapidinha instrumental com nome de glória sagrada, mas que não resiste a se deixar dançar.

8. Cinema americano (Rodrigo Bittencourt): a música ganhou uma nova versão com o acréscimo de duas estrofes em inglês entre seus versos e de “Cinema Americano” recebeu o título de “Cinema Big Butts”, além de uma letra mais provocativa, que explora diferentes faces humanas de quem exerce interesse e lança “prefiro os nossos sambistas. Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora. Que lê Rimbaud, Verlaine, que é frágil, que te adora. Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol, mas que joga sua pelada todo domingo debaixo de sol”.


9. Encantada (Adriana Calcanhotto): levada por verbos soltos, narra um flerte pelo qual se deixa levar. A canção toma corpo, mas retorna à estrutura inicial. A composição de Adriana Calcanhotto deixa sua marca, apesar da interpretação de Thaís, “Encantada” não consegue fugir muito dessa marca.

10. Ali sim, Alice (Tom Zé): fazendo referência ao clássico “Alice no País das Maravilhas”, ela e Tom Zé compartilham os vocais da faixa que traz os elementos e personagens mágicos da história decifrando o mundo, guiados por um piano que, como não poderia deixar de ser quando se trata de Alice, é meio psicodélico.

11. Little boxes (Malvina Reynolds): em inglês e numa pegada folk, Thais Gulin faz uma versão da canção famosa nos vocais de Malvina Reynolds, em 62. “Little boxes” faz uma crítica política à classe média americana. “E todas elas parecem a mesma coisa, e as pessoas nas casas todas foram para a universidade, onde eles foram colocados em caixas e eles saíram todos os mesmos. E há médicos e advogados e executivos de negócios e eles são todos feitos de material barato e todos eles se parecem exatamente iguais”.

12. Frevinho (Thaís Gulin / Moreno Veloso): o frevinho puxa o embalo de trazer o outro para perto sem ter que se preocupar em não demonstrar publicamente o sentimento. A alegria acaba caindo em carnaval sem fim.

13. Paixão Passione (Ivan Lins): cantando sobre a adrenalina da paixão, a música integrou a trilha sonora da novela global “Passione”.

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