Infinito Particular

Por Laís Semismarisamonte1 (1)

Talvez a composição não seja o seu maior forte, mas nem por isso ela deixa a originalidade de lado ao assumir a voz de canções que não são suas. Enquanto intérprete, ela ousou canções de sucesso de diversos cantores e bandas; de Tim Maia à Titãs, passando por ritmos que vão do baião ao rock.

Desde a infância, sua história começa regada à música.

O pai adorava samba. Em sua casa, esse era o ritmo não só que frequentemente era invocado nos toca discos por nomes como Monarco, Cartola e Noel Rosa, como também o que a fazia dançar e que a impulsionou já aos nove a tocar bateria.

Fora de casa foi encontrando outros ritmos com quem descobriu e flertou através de amigos; na adolescência, conheceu os clássicos roqueiros e também os brasileiros que foram surgindo na cena nacional, como Legião Urbana e Titãs.

Dedicou-se a estudar piano, bateria, violão e canto lírico. Mas o sonho de ser cantora de ópera ficou muito distante quando Marisa Monte decidiu trocar a Faculdade de Música por se profissionalizar nas ruas, em casas de shows e teatros.

marisamonte1 (2)

Apesar de já ter feito algumas apresentações antes no Brasil, foi na Itália, onde cursava música, que começou a cantar em bares com um repertório composto por música brasileira. No entanto, viver profissionalmente da música só teve o start com Nelson Motta – um amigo da família –  que a viu tocar em Veneza e decidiu produzir os shows de Marisa em seu retorno ao país.

A figura marcada pelos lábios vermelhos, cabelo escuro encaracolado e pele branquíssima de Marisa Monte embalaram dezenas de sucessos da MPB, conquistando desde 89, sete álbuns de estúdio e nove milhões de cópias vendidas.

Tribalistas+Photo+by+Rogrio+Cassimiro+2003

E foi justamente dando a voz a canções compostas por outros que ela descobriu grandes parceiros que a acompanhariam por toda a carreira. Sem ter planejado, acabou se aventurando num projeto promissor; ao lado de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes compôs um repertório que acabou sendo gravado secretamente e lançado em CD e DVD.

O power trio se utilizou do título de uma das canções para se auto-batizar “Tribalistas” e acabou atingindo com o seu único álbum a marca de 2,1 milhões.

A parceria entre os três já era de mais de década quando o projeto tomou forma e continuou com mais composições e gravações entre Marisa, Brown e Arnaldo Antunes – mas longe de serem novamente os “Tribalistas”, já que aquele era o registro de uma história em comum que seguiria se encontrando sem almejar uma continuação dentro do mesmo formato.

marisamonte1 (3)

Apesar de seus trabalhos mais recentes não se apresentarem com a mesma desenvoltura e vigor, olhando panoramicamente a carreira de Marisa Monte, dá para entender que com tantas referências que a marcaram nas diferentes fases de sua vida, era nada mais que natural que se tornasse uma intérprete tão versátil.

Sou do mundo, sou Minas Gerais

Por Laís Semis

milton 700

Milton Nascimento é uma das figuras mais reconhecidas da MPB no mundo inteiro. Apesar de ser natural do Rio de Janeiro, mudou-se muito cedo para Minas, onde se criou e se fez mineiro de coração – intitulou um disco com o nome do estado, cantou sobre os trilhos que o ligavam ao porto ao mar, sobre os tambores de lá, cantou que era Minas Gerais.

Ao lado de Fernando Brant compôs sucessos que ganharam o mundo, que foram parar na voz de Peter Gabriel e de parceiros e grandes nomes da Música Popular Brasileira. Milton Nascimento tem uma discografia de simplesmente 40 álbuns (entre os de estúdio e os ao vivo) e já cantou em mais de 300 cidades do mundo.

Desde muito cedo estabeleceu contato com a música. Sua mãe adotiva era professora de música, enquanto seu pai era dono de uma estação de rádio.  Aos 2 anos ele ganhou seu primeiro instrumento: uma sanfoninha. Antes dos 13 viria outra sanfona, uma gaita e um violão, mais ou menos a mesma época em que forma seu primeiro grupo musical, o “Luar de Prata” que se tornaria “Milton Nascimento e Seu Conjunto” e se apresentaria por algumas cidades próximas da que morava.

Mas o engate na trajetória musical viria mesmo junto com a mudança de Três Pontas para a capital do Estado, quando, pelo Clube da Esquina, ao lado de encontros com Brant, Beto Guedes e Lô Borges surgiram canções como “Para Lennon e McCartney” e um novo movimento da música brasileira. A partir daí foi ganhar o mundo.

Paralelo à carreira de cantor e compositor, em 2002, criou o selo “Nascimento”, que além de produzir seus próprios projetos, lançou artistas novos no mercado, como Marina Machado e Pedrinho do Cavaco.

E hoje, tantos discos e anos depois, ainda permanece o que Elis Regina disse uma vez: “se Deus cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento”.

E a senha de hoje é…

por Laís Semis

Abujamra

“O mundo de dentro da gente é maior que o mundo de fora da gente, o Universo de dentro da gente é o espaço sideral”, já diria André Abujamra em “Imaginação”. E haja imaginação pra lidar com um público tão diferente e com tanta fome de imagem, cores e formas. Há quem se dedique à isso, mas é preciso aflorar um espírito peculiar pra se permitir partir pra um universo anterior ou para entrar no Castelo.

Sílabas puxadas entre onomatopeias vão construindo uma ideia. Repetições que ritmam as mãos a serem lavadas (se não se perderem no batuque do “lava uma [mão], lava outra, lava uma). E por trás dessas músicas que muito além das histórias que ilustravam mexeram com o imaginário de crianças e das nem tão crianças também estão artistas como Roger (Ultraje a Rigor), Abujamra, Arnaldo Antunes e Hélio Ziskind.

Das que compunham a trilha sonora do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, não se pode esquecer da música de abertura (Uuumm, Cassss, Bum, bum, bum, Cass… telo!), com a planta do Castelo Rá-Tim- Bum tomando vida em sua construção mágica ao redor de uma árvore e sincronizada com os comandos sonoros dos vocais, além de “Ratinho Tomando Banho”, “Lavar as Mãos”, os “Como se Faz…?” e “Que Som É Este?”.

Pra quem compartilhou das tardes e aventuras de 94 a 97 sintonizado na TV Cultura (e se deixou levar pelas reprises nos anos seguintes de novo ou por uma primeira vez), percorrendo os espaços encantados do Castelo na companhia de Nino (que tinha o quarto mais invejado do Brasil), Pedro, Biba e Zequinha, sempre fugindo dos disfarçados contratos imobiliários do ambicioso Dr. Abobrinha, vale relembrar das criações educativas, inteligentes, atrativas e simples: muita gente talentosa reunida na proposta do inesquecível Castelo Rá-Tim-Bum.  Personagens marcantes e de todos os gêneros: fadas que moram no lustre, jornalista de rosa, ETs, passarinhos, botas que falam, entregadores de pizza, um “Telekid” (Marcelo Tas), caipora, cobras, gatos bibliotecários, ratos, monstros “maus”, bruxos e um menino grande (três séculos de vida) e seus amigos normais que o vinha visitar diariamente recebidos pelo porteiro de lata.

Castelo Rá-Tim-Bum

Castelo Rá-Tim-Bum

E Plift Ploft Still, a porta se abriu!

Clarice Falcão, romance de linhas tortas

por Laís Semis

Clarice Falcão compõe sobre exageros românticos

Clarice Falcão compõe sobre exageros românticos

Atriz, roteirista e cantora. Um som entre Mallu Magalhães e Soko, Clarice Falcão esbanja doçura por linhas tortas. Numa voz de menininha, dramatizando amores trágicos (“quando eu te vi fechar a porta, eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar, onde a Dona Maria mora, porque ela me adora e eu sempre posso entrar”), brincando nas letras e se atirando em histórias, cantando uma narrativa de uma menina meio desesperada em suas relações amorosas de homens que fogem dela e do seu comportamento obsessivo (“ei, se eu contar como é que eu me senti ao grampear seu celular, você vai numa DP?”).

O cenário é mais ou menos o mesmo: ela, seu vestido, um violão (às vezes trocado por um cavaquinho) e uma receita de amor distorcida, um coração meio partido que não se permite enxergar a realidade que a cerca.

Filha dos roteiristas João e Adriana Falcão, o mundo artístico, que sempre esteve presente, tomou forma muito cedo pelas suas mãos e aos 12 já tinha escrito uma peça de teatro. Em “Lisbela e o Prisioneiro”, Clarice Falcão cantou sua primeira música, aos 13 anos.

Hoje, aos 22, ela se formou na faculdade de cinema, atuou em algumas novelas, produziu alguns curtas e segue em trilhas sonoras, com letras fáceis, divertidas e escolhas inusitadas acompanhada na maioria das vezes apenas do violão. O sucesso se dá bastante pela internet, ela ganhou o prêmio de melhor curta no concurso internacional Project Direct, do YouTube, e apesar de já ter atuado em novelas, é “Monomania” (a música) que vem ganhando seu espaço na TV (como trilha sonora de um episódio de “As Brasileiras” e em canais de clipes) e fez de Clarice Galvão uma das “Apostas MTV” deste ano.

Hoje é terça-feira

por Laís Semis

“Sempre lançamos algo, e a partir daquilo começamos a tentar desmentir o que nós éramos. Que é um comportamento artístico por natureza. O que nós fomos em 2007, em 2009 nós desmentimos. Em 2011 nós desmentimos o que nós eramos em 2009. E no próximo álbum, obviamente faremos o mesmo.” Helio Flanders, em entrevista ao Portal e-Colab em março de 2012.

Capa do disco “Boa Parte de Mim Vai Embora”

Capa do disco “Boa Parte de Mim Vai Embora”

Lançado em 2011, o último disco da banda cuiabana Vanguart, “Boa Parte de Mim Vai Embora” abandona o niilismo de todos os amigos que querem morrer (prescrição da balada-sucesso “Semáforo” e aqueles versos que você já deve ter ouvido por aí “só acredito no semáforo, só acredito no avião, eu acredito no relógio e no coração”) por sentimentos mais nobres. Sentimentos mais nobres não – porque seria errado dizer que tais sentimentos inexistissem em suas canções, mas dessa vez os sentimentos aparecem desmascarados, totalmente nus e (pela primeira vez em um álbum) em português (com exceção de alguns poucos versos em espanhol na primeira faixa).

Entre procurar alguém e ir embora (uma vontade muito presente no disco – mas diferente das antigas vontades de partir), Helio Flanders e companhia (dos grandes) seguem em um embalo de uma voz que não deixa transparecer tanta felicidade das emotivas poesias tão bem compostas entrelaçadas a um violino e trompete.

Embora as letras olhem para o passado, outra vontade que parece ter se tornado recorrente nesse último Vanguart é a importância de se viver o presente e a consciência do tempo. Talvez por uma questão natural dos homens crescidos e necessidade presente nos seres de aproveitar a vida diante da perspectiva que ela lhe dá.

“Boa Parte de Mim Vai Embora” é um disco sobre mais do que ir embora. É um disco sobre renascer. E foi com belas canções que o Vanguart trouxe a renovação. Aqui eles aparecem, se mais calejados (“Engole”), mostram-se mais compreensíveis também diante das circunstâncias (como ilustra a faixa “Se Tiver Que Ser na Bala Vai”, “Eu Vou Lá” e “Das Lágrimas”).

Você pode encontrar muitas referências de coisas que eles ouvem, leem e veem.  Mas existe uma sinceridade musical no que o Vanguart produz. E nesse eterno desmentir de quem se é para quem um dia será, na noção do ser, que se faça presente pra que venha o futuro.

“Boa parte de mim vai embora,

A sua parte, que hoje sou eu.”

Para conferir a entrevista completa do e-Colab com o Vanguart, acesse:

http://e-colab.blogspot.com.br/2012/03/gr-12-entrevista-vanguart.html

Pausa no hiato

por Laís Semis

O álbum de estreia veio em 1999, intitulado “Los Hermanos”, que também era o nome da banda que havia se conhecido e se reunido dois anos antes na PUC-RJ. Eles sempre se preocuparam com a qualidade do que estavam produzindo mais do que com a quantidade de público que estavam atingindo. O som era um misto de rock e samba, trabalhando um coração partido.

O homônimo Los Hermanos levou logo de cara a banda a conquistar rádios, programas televisivos e uma multidão puxada pela garota que esnoba um amor, “Anna Julia”. O disco, que também continha o single “Primavera”, teve tamanha aceitação que acabou sendo indicado até ao Grammy.

E diferente das bandas que explodem um único hit e caem no completo esquecimento do público e perdem o reconhecimento da crítica, “Anna Julia” apesar de não ter sido renegada pelos Los Hermanos, é vista por eles como qualquer outra de suas canções, independente do tamanho do sucesso. Ela não é o tão esperado bis dos fãs.

Hermanos

Hermanos

O disco seguindo, Bloco do Eu Sozinho, indicava que era essa linha não tão comercial como “Anna Julia” (e de seu consecutivo sucesso de um primeiro álbum de destaque) que o Los Hermanos deveria seguir nos seus trabalhos posteriores. No entanto, a crítica continuaria a tirar o chapéu para os Hermanos e parte dos fãs se mostraria completamente fiel ao trabalho dos músicos.

Ventura e 4 tiveram caminhos diferentes. Se por um lado o primeiro emplacou singles como um disco mais convidativo, um prato cheio de amor (abrindo Ventura, “Samba a Dois” já pedia para ceder aos encantos), listado como um dos 100 álbuns brasileiros mais importantes pela Revista Rolling Stone, 4 não tinha o mesmo brilho.

E dois anos depois de “4”, ao fim da turnê, eles anunciaram a separação. Sem brigas nem previsão de retorno, os integrantes foram simplesmente se dedicar a outros projetos.

Mas se o Los Hermanos é uma banda que tem outras tantas canções além do hit-chiclete que merecem destaque e são aclamadas, porque é que eles não são tão populares assim?

Com discos menos populares do que se possa imaginar para uma banda do porte deles, o Los Hermanos vagueia por uma aura diferente. São canções que exigem vivência para compreender o que contém ali. Dificilmente alguém de 13 anos vai adorar um “Ventura” da vida (quando, no entanto, facilmente vai se apegar aos discos da Legião Urbana sem maiores problemas). É um som mais sério, sereno, maduro.

Em 2012, a banda comemora 15 anos e vai fazer algumas apresentações. Apenas algumas apresentações. Sem projetos de gravações conjuntas ou fazer mais shows, este é apenas um reencontro dos Hermanos, que continuam em hiato. A maioria dos 23 shows que vão acontecer do final de abril a junho deste ano já estão com os ingressos esgotados.

O balão nebuloso

por Laís Semis

Em 2003, Cícero Rosa Lins surgiu na música como guitarrista e vocalista da banda carioca Alice, a construção da sonoridade de Alice também foi a sua própria. O rock foi encontrando cada vez mais o MPB, até vir a carreira solo e, em julho de 2011, o sentimental álbum “Canções de Apartamento”.

Agora, Cícero se apresenta despido nas canções, como quem observa tudo de dentro de si por trás de janelas, revivendo memórias, batalhando crises entre o tempo que passou e vontades, a lembrança vem com a compreensão e aceitação do momento e o que o prende é a poesia de balões, Caetanos, vagalumes cegos e pipas. Tantas cores que se deixaram invadir pela neblina até o apartamento e na falta delas, ainda existe a esperança de se reinventar.

As composições fazem uma viagem melódica pelo interior de si e, transbordando solidão dessas de se abrir a janela e deixar o vento levar embora, vai se espalhando e se infiltrando por onde chega, por onde o vento as levam.

Cícero, “procurando descansar de quem a gente mesmo escolheu ser”

Solitário, melancólico e cheio de sonhos que residem lá fora ou no passado, composto, gravado e mixado dentro de seu apartamento, o álbum foi destaque em listas dos melhores álbuns nacionais de 2011. “Canções de Apartamento” inspira o convite de entrar e ouvir, mas como ele diz na faixa “Açúcar ou adoçante”, “entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar”, dispa-se. Cada faixa é uma entrega.

Reciprocamente, mergulhar nesse universo dos 25m²do apartamento de Cícero e vagar pelo seu âmago, vai acabar sendo inevitável esbarrar em seu próprio anterior e encontrar-se voando no mesmo céu de neblina.