O balão nebuloso

por Laís Semis

Em 2003, Cícero Rosa Lins surgiu na música como guitarrista e vocalista da banda carioca Alice, a construção da sonoridade de Alice também foi a sua própria. O rock foi encontrando cada vez mais o MPB, até vir a carreira solo e, em julho de 2011, o sentimental álbum “Canções de Apartamento”.

Agora, Cícero se apresenta despido nas canções, como quem observa tudo de dentro de si por trás de janelas, revivendo memórias, batalhando crises entre o tempo que passou e vontades, a lembrança vem com a compreensão e aceitação do momento e o que o prende é a poesia de balões, Caetanos, vagalumes cegos e pipas. Tantas cores que se deixaram invadir pela neblina até o apartamento e na falta delas, ainda existe a esperança de se reinventar.

As composições fazem uma viagem melódica pelo interior de si e, transbordando solidão dessas de se abrir a janela e deixar o vento levar embora, vai se espalhando e se infiltrando por onde chega, por onde o vento as levam.

Cícero, “procurando descansar de quem a gente mesmo escolheu ser”

Solitário, melancólico e cheio de sonhos que residem lá fora ou no passado, composto, gravado e mixado dentro de seu apartamento, o álbum foi destaque em listas dos melhores álbuns nacionais de 2011. “Canções de Apartamento” inspira o convite de entrar e ouvir, mas como ele diz na faixa “Açúcar ou adoçante”, “entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar”, dispa-se. Cada faixa é uma entrega.

Reciprocamente, mergulhar nesse universo dos 25m²do apartamento de Cícero e vagar pelo seu âmago, vai acabar sendo inevitável esbarrar em seu próprio anterior e encontrar-se voando no mesmo céu de neblina.

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