Won Hyo: introdutor do budismo na dinastia Silla ?

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

No volume 9 da obra Legacy (enciclopédia do Taekwon-Do publicada pelo fundador da ITF, General Choi, Hong Hi, nos anos 80 do século XX, com o auxílio do governo norte-coreano), encontramos a seguinte texto sobre o monge budista Won Hyo:

WON HYO: was the noted monk who introduced Buddhism to the Silla Dynasty in the year of 686 A.D.“, cuja tradução seria: “WON HYO: foi o notável monge que introduziu o budismo na dinastia Silla no ano de 686 d.C“.

Em alguns manuais/apostilas utilizados por algumas associações de Taekwon-Do ITF brasileiras, encontramos a seguinte tradução:

WON HYO: foi o notável monge que introduziu o budismo na Coréia, durante a dinastia Silla, no ano de 686 d.C.

O acréscimo, nesta tradução, das palavras em destaque, altera o significado da frase original e traz para o currículo apresentado a alguns praticantes desta Arte Marcial um erro sobre a história da Coréia ao transmitir aos alunos a ideia de que o budismo teria sido apresentado à nação coreana pelo monge chamado Won Hyo. A frase original remete apenas à suposição de que, no período em que o reino de Silla começou a exercer a sua hegemonia política sobre a nação coreana, o monge Won Hyo teria apresentado aos seus líderes o budismo.

Uma gravura com a imagem do monge Won Hyo.

Uma gravura com a imagem do monge Won Hyo.

O budismo já estava presente na cultura coreana há muito mais tempo, desde o período conhecido como dos “Três Reinos” (Koguryo, Silla e Paekche) e, segundo o historiador estadunidense Bruce Cumings, o budismo teria sido adotado como religião oficial do reino de Silla por volta do ano de 535 d.C., muitos anos antes do nascimento do monge Won Hyo (617 d.C.).

“… and the adoption of Buddhism as the state religion around 535 (Paekche and Koguryo adopted Buddhism earlier).” (Korea’s Place In The Sun – A Modern History; Bruce Cumings – 2005)

Um excelente livro sobre a história das Coreias escrito pelo pelo pesquisador estadunidense Bruce Cumings.

Um excelente livro sobre a história das Coreias escrito pelo pelo pesquisador estadunidense Bruce Cumings.

Ao buscarmos na internet a biografia do monge Won Hyo, encontramos bons textos na Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Wonhyo) e no site Korean Buddhism (http://www.koreanbuddhism.net/master/priest_list.asp?cat_seq=10), entre outras fontes. É interessante notar que todas as referências a este personagem indicam o seu falecimento no ano de 686 d.C., o mesmo em que, pela historiografia oficial do Taekwon-Do ITF, ele teria supostamente introduzido o budismo na dinastia Silla.

Estas questões históricas não diminuem em nada a importância das contribuições do monge Won Hyo para a filosofia e a religiosidade coreanas e também não afetam a qualidade técnica do Taekwon-Do Tradicional. No entanto, como o fundador da ITF expressou várias vezes que esta Arte Marcial deveria contribuir para a divulgação da cultura e da história das Coreias, é essencial que os seus praticantes estejam atentos às atualizações que as pesquisas acadêmicas trazem aos temas concernentes ao Taekwon-Do Tradicional.

Bons dias !!!

Sabum Nim Eduardo Godoi (4o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Rua Armando Steck, 408 – sala 3 – Centro – Louveira – SP – CEP 13.290-000

Situação atual e desafios do TaeKwon-Do Tradicional no Brasil

por Armando Vivas

Quando vejo a quantidade de eventos, Campeonatos ou Seminários que são realizados em todo Brasil pelas diferentes Organizações de TaeKwon-Do ITF, fico pensando em duas coisas: por um lado o grande potencial que têm o TKD tradicional para se desenvolver e crescer, e o muito que ainda há para fazer em prol desse desenvolvimento. E ao mesmo tempo a grande dispersão e divisão que se vive dentro deste universo ITF.

Organizações que não se reconhecem umas as outras. Mestres, Instrutores e dirigentes que praticamente não tem relacionamento entre si. Se uma determinada Organização realiza um evento, é muito comum que se ditem diretivas expressas que proíbem convidar a escolas que não pertencem a essa organização. E outras vezes também o contrário: proibição de participar de um evento organizado por outra escola ou Federação.

Essa é uma realidade tão inegável como prejudicial para aquilo que todos os que amamos esta Arte desejamos: o desenvolvimento e fortalecimento do TaeKwon-Do ITF no  Brasil.

Faz pouco tempo, em abril deste ano na cidade de Louveira, Estado de São Paulo se realizou um Campeonato que foi uma verdadeira exceção a esta regra. Estivemos presentes escolas que pertencem a três Organizações: FBT, OBTI, e ITF Masters. E esse Campeonato, que foi organizado por Sabum Nim Eduardo Godoi e sua Escola, a Ch’ang Hon Ryu, foi um exemplo palpável de que sim é perfeitamente possível realizar eventos abertos a todos os que trabalham dentro do nosso estilo, independentemente de com quem estejam alinhados nesse momento.

A 1a. Copa Louveira de Taekwon-Do Tradicional reuniu representantes de três federações internacionais e de cinco associações brasileiras (abril de 2013).

A 1a. Copa Louveira de Taekwon-Do Tradicional reuniu representantes de três federações internacionais e de cinco associações brasileiras (abril de 2013).

Mas esse foi um Campeonato modesto, tão modesto que nem sequer mereceu algum comentário por parte de alguma autoridade ITF dentro de Brasil.

Agora imaginemos o impacto que significaria organizar cada tanto um grande Campeonato Aberto á participação de todas as organizações e escolas que queiram fazer parte dele. Campeonatos ou eventos que poderiam se realizar por exemplo no Rio ou em São Paulo, só para nomear dois estados chaves. Isso teria um efeito benéfico para todos, eventos dessa importância poderiam atrair até a atenção da mídia  especializada, e sua repercussão seria muito maior sem dúvidas.

Particularmente, nós da UBT (União Brasileira de TaeKwon-Do) , não temos problema nenhum em participar de qualquer evento ao quais sejamos convidados, sempre que estiver ao alcance de nossas possibilidades.

Logotipo da União Brasileira de Taekwon-Do ITF, presidida pelo Sabum NIm Armando Vivas (6o. Dan).

Logotipo da União Brasileira de Taekwon-Do ITF, presidida pelo Sabum NIm Armando Vivas (6o. Dan).

Mas o que eu vejo não é uma tendência crescendo para esse lado, se não o contrário: parece que prevalece a divisão, as disputas, e a dispersão.

Está claro que cada Escola ou organização tem todo o direito de procurar o caminho que considere seja o melhor para seu próprio desenvolvimento e crescimento, mas isso não deveria ser um impedimento para tentar produzir e manter um relacionamento produtivo e respeitoso com o resto das organizações e dirigentes, o que derivaria sem dúvida nenhuma em benefício para todos.

Nós, na medida de nossas possibilidades continuaremos insistindo na necessidade de abrir e cultivar a perspectiva de construir um TaeKwon-Do de relacionamento mais aberto, de reconhecimento e respeito mútuo entre dirigentes e organizações. Um TaeKwon-Do acorde as exigências e possibilidades de nosso presente neste século XXI.

Sabum Nim Armando Vivas (6o. Dan)

União Brasileira de Taekwon-Do ITF
Rua Domingos de Morais, 1458 – Vila Mariana- São Paulo – SP – telefone: (11) 5539 4029

Por um Taekwon-Do sem fronteiras dentro do nosso país

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

O Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do é bastante conhecido como Taekwon-Do ITF: o fato de o seu principal desenvolvedor (com o auxílio de Mestres Pioneiros cujos nomes não são comumente citados nos “manuais e apostilas”), o General Choi, Hong Hi, ter fundado e presidido a primeira International Taekwon-Do Federeation (ITF), de 1966 atá o seu falecimento, em 2002, associou fortemente o nome e a sigla de um órgão gestor ao nome da Arte Marcial, chegando mesmo a substituir o epíteto original que acompanharia o nome Taekwon-Do: “Ch’ang Hon Ryu” (Taekwon-Do estilo Ch’ang Hon).

Hoje, usa-se o nome de um órgão gestor como se ele denominasse o conteúdo técnico da Arte Marcial ensinada. É como se, após a chamada “Revolução Científica do Século XVII”, a “Física Newtoniana” ficasse conhecida como “Física da Royal Society” pelo fato de Isaac Newton ter fundado e presidido a Academia Real de Ciências do Império Britânico.

3a. Edição da grande obra de Isaac Newton, já então publicada pela Royal Society (1727)

3a. Edição da grande obra de Isaac Newton, já então publicada pela Royal Society (1727)

Este mesmo “estilo de Física” é praticado no mundo inteiro em diversas instituições de ensino ligadas a diferentes órgãos gestores (Secretarias e Ministérios de Educação, por exemplo) e não há um comando centralizado numa única “federação” mundial. Imaginem se os “legítimos” newtonianos exigissem que a Royal Society controlasse o ensino de Física no mundo inteiro… A qualidade do conteúdo da “Mecânica Clássica” aprendido pelos alunos nas escolas e universidades não depende do controle de um único órgão gestor, de uma única “federação” e o fato de termos diversos órgãos gestores – a nível nacional e mundial – favorece, através dos espaços de intercâmbio e de competição saudável, o desenvolvimento contínuo desta disciplina.

Logotipo da "International Taekwon-Do Federation - ITF" utilizado por, pelo menos, três organizações com alcance mundial.

Logotipo da “International Taekwon-Do Federation – ITF” utilizado por, pelo menos, três organizações com alcance mundial.

Antes mesmo da morte do General Choi, já tínhamos, a nível mundial, algumas federações “disputando o mercado” para o ensino do Taekwon-Do Tradicional e, após o falecimento do Fundador da primeira ITF, o número de entidades internacionais aumentou significativamente (no artigo intitulado “O Taekwon-Do e suas federações“, o Leitor encontrará uma lista bastante abrangente de links para os sites de várias entidades internacionais). Se isto não comprometeu comprovadamente a qualidade do ensino da Arte Marcial, afetou, no entanto, algumas pretensões financeiras e de poder por parte de alguns que se consideram os “únicos e legítimos herdeiros” da obra desenvolvida, inicialmente, sob a liderança do General Choi.

O inferno são os outros…

Uma postura bastante comum em muitos líderes das principais organizações é, primeiramente, “negar a existência do outro” e, quando, com uma importante contribuição da internet, não dá mais para esconder dos próprios alunos que “inimigo mora ao lado“, nega-se lhe qualquer qualquer atributo de qualidade técnica, didática e gerencial.  Muitos gestores gastam um  tempo significativo falando mal dos seus concorrentes. Se os esforços para denegrir os concorrentes fossem concentrados na busca de métodos inovadores de gestão e de prática docente, as suas organizações alcançariam um desempenho muito melhor do que se, eventualmente, conseguissem  até mesmo “eliminar a concorrência”.

A concorrência é saudável, favorece a inovação e diminui a tendência a ficarmos acomodados, agarrados a modelos de gestão que, se alcançaram sucesso (???) no passado, já não servem para as demandas e desafios que o mercado nos coloca neste início de século XXI.

Diálogo, intercâmbio e competição…

Muitas vezes eu escutei colegas Faixas-Pretas lamentando um suposto “paraíso perdido”: – Ah, como era bom o tempo em que havia uma única ITF…

Era bom mesmo ? Não haviam os vários descontamentos abafados pela autoridade do General Choi e por seus representantes nacionais ? O Taekwon-Do Tradicional era amplamente conhecido e praticado no Brasil ? A maioria dos Instrutores podiam se dedicar exclusivamente ao Taekwon-Do e viver confortavelmente, com qualidade de vida digna e sem depender de outras fontes de renda ? Não haviam Faixas-Pretas defasados em suas graduações, que já mereciam estar bem mais avançados em suas carreiras ? Existiu, mesmo, esta “era dourada do Taekwon-Do ITF” no Brasil ?

Certamente, as dificuldades enfrentadas pelos praticantes desta Arte Marcial, no Brasil, não aumentaram com o surgimento de novas organizações gerenciando o Taekwon-Do Tradicional. Ao contrário, um primeiro benefício desta diversificação foi a distribuição, em diferentes entidades nacionais, de praticantes que, devido às mais diversas e justificadas disputas com seus pares, teriam, antes, que se afastar do Taekwon-Do ou se submeter a condições desfavoráveis aos seus desenvolvimentos como artistas marciais e como seres humanos.  Hoje, já existe uma possibilidade maior de encontrarmos uma entidade que se ajuste ao nosso “perfil profissional”.

Precisamos reconhecer e respeitar a existência do “outro”. Precisamos dialogar e aprender com o “outro”. Precisamos criar espaços para intercâmbios entre os praticantes ligados às várias organizações, realizando seminários técnicos, competições e mesmo encontros abertos àqueles que se encontram filiados às várias federações. O Brasil é um país continental e há espaço para todas as organizações crescerem e se desenvolverem em nosso país, todos podendo ganhar muito dinheiro com a prestação de serviços e venda de produtos ligados ao Taekwon-Do. Mas é preciso, também, ter muita coragem e muita competência para substituir, com inovação e qualidade, modelos de gestão ultrapassados e que nunca apresentaram resultados satisfatórios em nosso país.

Bons dias !!!

Sabum Nim Eduardo Godoi (4o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Rua Armando Steck, 408 – sala 3 – Centro – Louveira – SP – CEP 13.290-000

Guerreiros Hwarang

por Luiz Carlos Silva

Hwa Rang é o nome dado a um grupo de jovens guerreiros aristocratas em Silla (57 a.C. -936 d.C.) o menor dos 3 reinos, localizado no sudeste da península, ao longo de parte do rio Naktong. Esse grupo de elite tornou-se a força propulsora que levou a unificação dos 3 reinos.

Foi durante o reino de Chin Heung, 24º rei de Silla, período de reinado de 540 a 576 d.C. que esta corporação de jovens guerreiros de famílias nobres, chamados Hwa Rang foi então extremamente valorizada, em face da vontade e determinação do rei de conceder grande estrutura e apoio a essa magnífica força paramilitar. Estes jovens eram minuciosamente selecionados. Além do extenuante treinamento regular com espada, lança arco e flecha, equitação, esses valentes jovens recebiam aulas de disciplina mental e física e várias formas de combate corpo a corpo, eles entregavam-se de corpo e alma nesta dura tarefa de: aprendizado, treinamento, formação para então estarem totalmente preparados, prontos para cumprir com sua leal e gloriosa missão de lutar de forma eficaz para defender sua pátria com coragem, bravura e heroísmo assim conquistando memoráveis vitórias. Paralelamente também recebiam aulas de: História, ética, filosofia, clássicos chineses, literatura, poesia, música, dança, religião, budismo. Para enrijecer seus corpos escalavam montanhas escarpadas, nadavam em rios turbulentos em tempos de extremo frio no auge do inverno. Os Hwa Rang incorporaram um código de conduta de 5 itens, composto pelo renomado monge budista e sábio Wong Gwang, também conhecido como Won Gwang Bopsa, o qual assim como grande parte dos monges budistas tanto coreanos quanto japoneses do século VI a VIII, Won também viajou para a China, onde lá passou vários anos estudando, justamente para buscar mais conhecimento e aprimoramento nos textos budistas.

O  código de conduta, também chamado de código de honra.
1. Obediência ao rei.
2. Respeito para com os pais.
3. Lealdade para com os amigos.
4. Nunca recuar ante o inimigo.
5. Só matar quando não houver alternativa.

Esta casta de guerreiros tornou-se muito conhecida na península justamente por suas constantes façanhas, tendo em vista a extraordinária superioridade devido a todo: adestramento, perícia, força, valentia, habilidade, técnica, talento de seus guerreiros e também extrema genialidade em táticas e estratégias de combate, assim somando decisivas, incontáveis e lendárias vitórias nos campos de batalha. Alguns destes valentes e destemidos guerreiros morreram nos campos de batalhas no início de sua mais tenra juventude. Os destemidos Hwa Rang tendo em vista toda sua coragem, lealdade, bravura e heroísmo, conquistaram o respeito e consideração até de seus mais árduos inimigos.

A passeata pela independência da Coréia em 1o. de março de 1919: “SAM IL”

por Luiz Carlos Silva

O Movimento de Independência SAM IL, também conhecido como a Marcha de Independência SAM IL, foi um dos eventos mais marcantes ocorridos na península, clamando pela independência da Coréia em tempos difíceis de dominação japonesa. Foi um dos mais significativos atos na história da humanidade, que levou a conhecimento do mundo, todo o grandioso patriotismo, coragem e altivez do povo coreano.

A inspiração do Movimento foi ocasionada principalmente por dois acontecimentos:

Um deles foi o discurso de 14 pontos do 28º Presidente dos Estados Unidos da América Dr. Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) do Partido Republicano, proferido exatamente em 8 de janeiro de 1918 no Congresso daquele país, no qual Woodrow estimulava a política de autodeterminação, tanto para as pequenas como para as grandes nações.

O Movimento também foi inspirado pela Conferência de Paz iniciada em Paris em 18 de janeiro de 1919 que proclamou o fim de alguns domínios coloniais. O rei Kojong enviou uma delegação liderada por Kim Gyu-sik, aos quais não lhes permitiram suas presenças como delegados com direito a voto. Os coreanos estavam totalmente desinformados sobre o pacto secreto entre Estados Unidos, Japão e França para excluir a Coréia e a Indochina da Conferência de Paris.

Após saber sobre o discurso de Wilson, jovens estudantes coreanos no Japão publicaram uma Declaração, exigindo a independência coreana. Quando esta declaração chegou a conhecimento do Movimento Nacional da Resistência na Coréia, liderado por 33 religiosos (metodistas, budistas, presbiterianos, chondoístas) os quais formavam o núcleo do Movimento, incluindo o patriota Son Byong Hi (1861-1922) líder da religião Chondoyo, esta liderança decidiu que estava chegando a hora de agir, portanto patriotas coreanos, na maioria religiosos e também jovens estudantes, no mais absoluto segredo, planejaram, organizaram e montaram demonstrações populares pela Independência nacional, todo este secreto planejamento foi cuidadosamente disseminado por todas as cidades, povoados e aldeias da Coréia, os quais finalmente irromperam nas ruas, tendo como ponto de partida o dia 1º de Março de 1919, quando veio a tona a notícia do falecimento do rei Kojong (1851-1919), que tinha sido envenenado pelos japoneses no dia 21 de janeiro de 1919.

Entretanto ardilosamente Wilson não demonstrou em sua declaração, que nem todas as colônias estavam livres, obviamente levando os coreanos a não perceberem que tal liberdade não se aplicava para: Coréia, Índia, Tibet, Pérsia, Líbia, Marrocos, Vietnã e algumas outras colônias dos vencedores da 1ª Guerra Mundial. Os nacionalistas coreanos erroneamente levaram ao pé da letra o discurso de Wilson e não perceberam toda sua sagacidade, que ardilosamente, nas entrelinhas não relatou em seu discurso que a Coréia e alguns poucos outros países não estariam livres, ou seja, não perceberam que Wilson não era tão bonzinho como ele mesmo se considerava.

Cabe à pena lembrar que os Estados Unidos exatamente no ano de 1905 durante a gestão de seu 26º Presidente Theodore Roosevelt (1858-1919), concordou com a anexação da Coréia pelo Japão justamente no Tratado Taft-Katsura. O qual foi um memorando assinado durante o encontro entre o Secretário de Guerra dos Estados Unidos William Howard Taft (1857-1930) e o 1º Ministro japonês Katsura Taro (1848-1913) ocorrido exatamente em 27 de Julho de 1905 em Tóquio, com data de 29/07/1905 (memorando) no qual os Estados Unidos comprometeu-se em não interferir na política de influência do Japão sobre a Coréia e em troca o Japão comprometeu-se em não interferir na política de influência dos Estados Unidos sobres as ilhas Filipinas.

Aproximadamente as 14,00 h do dia 1º de Março de 1919, os 33 religiosos nacionalistas, reuniram-se no Restaurante Taehwagwan em Seul e leram a Declaração de Independência, os nacionalistas inicialmente tinham planejado reunirem-se no Parque Tapgol no centro de Seul, mas decidiram de última hora mudar para um local mais reservado, tendo em vista o receio que tal reunião pudesse se transformar em tumulto, desordem. Os líderes do Movimento então assinaram o documento que havia sido redigido pelo escritor e historiador Choe Nam-son (1890-1957) e enviaram uma cópia para o Governador Geral da Coréia, General japonês Hasegawa Yoshimichi (1850-1924). Eles então telefonaram para a Delegacia Central de Polícia informando sobre as ações e logo foram presos.

Imediatamente após o encontro no restaurante, uma grande multidão reuniu-se no Parque Tapgol onde ouviram o estudante Chun Jae Hyong ler a cópia da Declaração publicamente. “O dia de hoje é marcado pela Declaração de Independência, haverá pacíficas demonstrações por toda a Coréia, tendo em vista, nossos encontros serem ordeiros e pacíficos, nós vamos receber a ajuda do Pres. Wilson e das Grandes Potências da Conferência de Paz em Paris e a Coréia será uma nação livre….

E logo o encontro transformou-se em uma gigantesca passeata, com milhares de manifestantes: religiosos, estudantes, mulheres, crianças, camponeses, cidadãos em geral gritando palavras de ordem como “VIVA A CORÉIA’ e também cantando hinos, com a intenção pacífica e ordeira de mostrar para o mundo o sublime sonho de tornarem-se livres novamente”.

Por sua vez os japoneses responderam com extrema brutalidade, selvageria, crueldade, milhares de pacíficos manifestantes foram: massacrados, baleados, assassinados, espancados, aprisionados, torturados, líderes cristãos foram crucificados, justamente para agonizarem na cruz, ou seja, sofrerem morte lenta, pois segundo os japoneses: “Assim estes coreanos irão para o céu”.

Na localidade de Jeam Ri os japoneses após terem aprisionado dezenas de pacatos cidadãos, os levaram para dentro de igreja, trancaram as portas e atearam fogo carbonizando todos que lá estavam.

Vários massacres aconteceram em cidades e aldeias da região de Suwon, onde diversas localidades foram pilhadas, saqueadas, as casas queimadas, as pessoas assassinadas, algumas pessoas conseguiram fugir e se refugiar nas montanhas, sobrevivendo apenas com a alimentação de raízes e plantas.

Não obstante o povo não deixou se intimidar e a verdadeira febre de demonstrações, manifestações, passeatas, que tinha se espalhado por toda a península, conseguiu obter uma ampla reação de simpatia mundial pela causa.

Os coreanos contabilizaram aproximadamente: 7.500 mortos, 16.000 feridos e 47.000 presos.

Os japoneses incendiaram 59 igrejas, 3 escolas e 724 casas.

Desde o início no dia 1º de Março de 1919 até o final 2 meses após, mais de 2 milhões de coreanos participaram das mais de 1500 demonstrações ocorridas em toda a península.

Para homenagear os patriotas, corajosos, mártires, heróis coreanos que participaram das passeatas, foram construídas várias chapas de cobre, com gravuras em relevo no Parque Tapgol, as quais estão situadas lada a lado, mostrando a história do Movimento pela Independência denominado “Sam iL.” Tapgol é o 1º Parque com estilo ocidental em Seul, e que incorpora a tradicional arquitetura coreana.

O terror vindo dos céus

por Luiz Carlos Silva

Durante todo o transcurso da guerra (1950-1953), Pyongyang a capital da República Democrática Popular da Coréia, foi pesadamente atacada com todos os tipos de bombas daquela época de forma implacável, indiscriminada e impiedosa pela Força Aérea dos Estados Unidos, principalmente com bombas de Napalm. Foram mais de 1000 bombas por quilômetro quadrado, e a destruição foi total e aniquiladora. Toda a estrutura e infra-estrutura da cidade foram destruídas: energia elétrica, água potável, hospitais, escolas, transporte, comunicações, pontes, indústrias, estradas, farmácias e todo o comércio. A cidade foi praticamente riscada do mapa.

Quando o armistício foi assinado em 27/07/1953 havia somente 2 prédios na cidade, na qual 400.000 pessoas haviam residido, uma foto aérea tirada em meados de 1953 sobre esta capital, mostrou que as condições da cidade estavam semelhantes as cidades de Hiroshima e Nagasaki logo após terem sido bombardeadas com armas nucleares pelos Estados Unidos em 06.08.1945 e 09.08.1945 respectivamente. É bom que fique aqui registrado que os EUA foi o único país na história da humanidade a lançar armas nucleares sobre seres humanos.

Quanto a guerra da Coréia, a destruição, matança indiscriminada, flagelo,  desgraça,  fome e  miséria sem paralelos que se abateram sobre a população coreana e de forma tão aguda que se perpetuou nos anos seguintes pela estagnação da economia e instabilidade política, como conseqüência de tão arrasadora experiência. Na parte norte da península coreana foram centenas de milhares de crianças, mulheres e idosos mortos despedaçados e carbonizados. Além de milhares de órfãos e sobreviventes, desfigurados pelas queimaduras, mutilados pelas bombas de fragmentação e por outras armas. E ainda milhares de famílias separadas e dezenas de milhares de casas destruídas, entre tantas outras barbaridades.

As terríveis bombas de Napalm

Durante todo o conflito (1950-1953), os Estados Unidos mantiveram uma política de pesados e constantes bombardeios em larga escala sobre a população da Coréia do Norte, especialmente utilizando bombas incendiárias contra todas as cidades e instalações civis e militares da parte norte da península coreana. Mesmo que esses tipos de atrocidades fossem tristemente lembrados no mundo pelo horror das imagens de vítimas civis, justamente na Guerra do Vietnã, pois naquele período programas de TV mostravam frequentemente para todo o mundo, cenas horripilantes de: crianças, idosos mulheres sendo queimadas vivas.

A bomba de Napalm possui uma substância gelatinosa que cola na pele, causando queimaduras de 3º grau, pois as pessoas mesmo entrando na água, ainda continuam queimando e significativamente muito mais Napalm foi lançado no norte da península (1950-1953) apesar do relativo pouco tempo de guerra em relação a Guerra do Vietnã. Para se ter uma idéia, durante o final da 2ª metade do ano de 1950, somente neste período foi lançado o equivalente a mais de 1 milhão de galões de Napalm sobre a população civil coreana na parte norte.

Em Maio e Junho de 1953, reforçando ordens do General Douglas Mac Arthur (1880-1964), o então 33º Presidente dos Estados Unidos Harry Truman (1884-1972), autorizou o General Curtis Emerson LeMay (1906-1990), líder do Comando Estratégico Aéreo (líder daquele comando desde 19 de Outubro de 1949) a bombardear toda a parte norte da península usando bombas de fragmentação e também bombas incendiárias. Em suma, a ordem era destruir todas as barragens, hidroelétricas, agricultura, indústria, plantações de arroz e incendiar todas as cidades e aldeias de camponeses da Coréia do Norte, matando também milhares de pessoas afogadas devido a destruição das barragens e posteriormente outros milhares morreram de fome.

C.E. LeMay, o mais jovem general da Força Aérea dos Estados Unidos a receber a 4ª estrela, desde Ulysses S. Grant (1882-1885) do Exército,  declarou:

“Nós matamos 30% da população da Coréia do Norte, na verdade nós matamos 40% da população da Coréia do Norte, talvez o maior percentual de população civil morta, na história de todas as guerras.”

O mesmo LeMay, já em sua aposentadoria declarou:

“Nós consumimos pelo fogo cada cidade da Coréia do Norte, e algumas poucas do Sul por engano, mas de qualquer forma nós as queimamos.”

Breve relato da história do Taekwon-Do muito pouco divulgada

por Roberto Abdo

Este trabalho foi baseado nos relatos divulgados através do livro “A KILLING ART – THE UNTOLD HISTORY OF TAE KWON DO”,  de Alex Gillis, que traz uma vasta coleção de notas, com o intuito de demonstrar crédito a sua obra. Aqui, deixarei de buscar tais referências, por entender que não é o caso.

Devemos tentar entender essa história não por nossos princípios ou nossa realidade, porém buscar compreender o contexto, ou contextos, pelos quais ela se desenvolve.

Clique, aqui, para ler, na íntegra, a monografía do Boosabum Roberto Abdo.

Por mais que nos pareçam deploráveis as circunstâncias da fundação e desenvolvimento do Tae Kwon Do, devemos entender, primeiro, que os caminhos para sua criação foram trilhados em um ambiente muito diferente daquele onde vive o pensamento ocidental.

O que nos parece imoral, e até mesmo impensável, naqueles momentos, naquelas regiões, entre aquelas pessoas, pode ter sido perfeitamente normal. Pode ter sido parte de um jogo, a cujas regras e movimentos não estamos habituados.

Estudando o pouco que pude da história me senti como um torcedor. A cada fato, a cada resultado, vibrava, me revoltava, me entristecia, por vezes me enojava. Pude entrever, porém, a paixão com que foram jogadas as peças da construção desta Arte. Uns em busca de poder, gloria e dinheiro. Outros iam além, buscando a imortalidade.

Tanto seus pioneiros, entre eles Nam Tae-hi e Jong-Soo Park, como seus opositores, seus perseguidores, usurpadores e até mesmo os inimigos invasores japoneses, contribuíram para a formação do Tae Kwon Do.

Como ocidental, não sei dizer se o General Choi Hong-Hi estava certo ou errado em suas atitudes. Conforme lia, mais torcia por ele. Na minha modesta opinião, ele era fantástico.

Não sei dizer, também, o quanto dos princípios do Tae Kwon Do ele seguiu, aplicou ou burlou. Sei que sua PERSEVERANÇA, ESPÍRITO INDOMÁVEL e AUTO-CONTROLE (ou sua falta) nos permitiram desfrutar o aprendizado de, mais que um simples esporte, uma Arte Marcial bela, eficiente e, por que não dizer, refinadamente mortal.

Boosabum Roberto Abdo (1o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro