Situação atual e desafios do TaeKwon-Do Tradicional no Brasil

por Armando Vivas

Quando vejo a quantidade de eventos, Campeonatos ou Seminários que são realizados em todo Brasil pelas diferentes Organizações de TaeKwon-Do ITF, fico pensando em duas coisas: por um lado o grande potencial que têm o TKD tradicional para se desenvolver e crescer, e o muito que ainda há para fazer em prol desse desenvolvimento. E ao mesmo tempo a grande dispersão e divisão que se vive dentro deste universo ITF.

Organizações que não se reconhecem umas as outras. Mestres, Instrutores e dirigentes que praticamente não tem relacionamento entre si. Se uma determinada Organização realiza um evento, é muito comum que se ditem diretivas expressas que proíbem convidar a escolas que não pertencem a essa organização. E outras vezes também o contrário: proibição de participar de um evento organizado por outra escola ou Federação.

Essa é uma realidade tão inegável como prejudicial para aquilo que todos os que amamos esta Arte desejamos: o desenvolvimento e fortalecimento do TaeKwon-Do ITF no  Brasil.

Faz pouco tempo, em abril deste ano na cidade de Louveira, Estado de São Paulo se realizou um Campeonato que foi uma verdadeira exceção a esta regra. Estivemos presentes escolas que pertencem a três Organizações: FBT, OBTI, e ITF Masters. E esse Campeonato, que foi organizado por Sabum Nim Eduardo Godoi e sua Escola, a Ch’ang Hon Ryu, foi um exemplo palpável de que sim é perfeitamente possível realizar eventos abertos a todos os que trabalham dentro do nosso estilo, independentemente de com quem estejam alinhados nesse momento.

A 1a. Copa Louveira de Taekwon-Do Tradicional reuniu representantes de três federações internacionais e de cinco associações brasileiras (abril de 2013).

A 1a. Copa Louveira de Taekwon-Do Tradicional reuniu representantes de três federações internacionais e de cinco associações brasileiras (abril de 2013).

Mas esse foi um Campeonato modesto, tão modesto que nem sequer mereceu algum comentário por parte de alguma autoridade ITF dentro de Brasil.

Agora imaginemos o impacto que significaria organizar cada tanto um grande Campeonato Aberto á participação de todas as organizações e escolas que queiram fazer parte dele. Campeonatos ou eventos que poderiam se realizar por exemplo no Rio ou em São Paulo, só para nomear dois estados chaves. Isso teria um efeito benéfico para todos, eventos dessa importância poderiam atrair até a atenção da mídia  especializada, e sua repercussão seria muito maior sem dúvidas.

Particularmente, nós da UBT (União Brasileira de TaeKwon-Do) , não temos problema nenhum em participar de qualquer evento ao quais sejamos convidados, sempre que estiver ao alcance de nossas possibilidades.

Logotipo da União Brasileira de Taekwon-Do ITF, presidida pelo Sabum NIm Armando Vivas (6o. Dan).

Logotipo da União Brasileira de Taekwon-Do ITF, presidida pelo Sabum NIm Armando Vivas (6o. Dan).

Mas o que eu vejo não é uma tendência crescendo para esse lado, se não o contrário: parece que prevalece a divisão, as disputas, e a dispersão.

Está claro que cada Escola ou organização tem todo o direito de procurar o caminho que considere seja o melhor para seu próprio desenvolvimento e crescimento, mas isso não deveria ser um impedimento para tentar produzir e manter um relacionamento produtivo e respeitoso com o resto das organizações e dirigentes, o que derivaria sem dúvida nenhuma em benefício para todos.

Nós, na medida de nossas possibilidades continuaremos insistindo na necessidade de abrir e cultivar a perspectiva de construir um TaeKwon-Do de relacionamento mais aberto, de reconhecimento e respeito mútuo entre dirigentes e organizações. Um TaeKwon-Do acorde as exigências e possibilidades de nosso presente neste século XXI.

Sabum Nim Armando Vivas (6o. Dan)

União Brasileira de Taekwon-Do ITF
Rua Domingos de Morais, 1458 – Vila Mariana- São Paulo – SP – telefone: (11) 5539 4029
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Por um Taekwon-Do sem fronteiras dentro do nosso país

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

O Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do é bastante conhecido como Taekwon-Do ITF: o fato de o seu principal desenvolvedor (com o auxílio de Mestres Pioneiros cujos nomes não são comumente citados nos “manuais e apostilas”), o General Choi, Hong Hi, ter fundado e presidido a primeira International Taekwon-Do Federeation (ITF), de 1966 atá o seu falecimento, em 2002, associou fortemente o nome e a sigla de um órgão gestor ao nome da Arte Marcial, chegando mesmo a substituir o epíteto original que acompanharia o nome Taekwon-Do: “Ch’ang Hon Ryu” (Taekwon-Do estilo Ch’ang Hon).

Hoje, usa-se o nome de um órgão gestor como se ele denominasse o conteúdo técnico da Arte Marcial ensinada. É como se, após a chamada “Revolução Científica do Século XVII”, a “Física Newtoniana” ficasse conhecida como “Física da Royal Society” pelo fato de Isaac Newton ter fundado e presidido a Academia Real de Ciências do Império Britânico.

3a. Edição da grande obra de Isaac Newton, já então publicada pela Royal Society (1727)

3a. Edição da grande obra de Isaac Newton, já então publicada pela Royal Society (1727)

Este mesmo “estilo de Física” é praticado no mundo inteiro em diversas instituições de ensino ligadas a diferentes órgãos gestores (Secretarias e Ministérios de Educação, por exemplo) e não há um comando centralizado numa única “federação” mundial. Imaginem se os “legítimos” newtonianos exigissem que a Royal Society controlasse o ensino de Física no mundo inteiro… A qualidade do conteúdo da “Mecânica Clássica” aprendido pelos alunos nas escolas e universidades não depende do controle de um único órgão gestor, de uma única “federação” e o fato de termos diversos órgãos gestores – a nível nacional e mundial – favorece, através dos espaços de intercâmbio e de competição saudável, o desenvolvimento contínuo desta disciplina.

Logotipo da "International Taekwon-Do Federation - ITF" utilizado por, pelo menos, três organizações com alcance mundial.

Logotipo da “International Taekwon-Do Federation – ITF” utilizado por, pelo menos, três organizações com alcance mundial.

Antes mesmo da morte do General Choi, já tínhamos, a nível mundial, algumas federações “disputando o mercado” para o ensino do Taekwon-Do Tradicional e, após o falecimento do Fundador da primeira ITF, o número de entidades internacionais aumentou significativamente (no artigo intitulado “O Taekwon-Do e suas federações“, o Leitor encontrará uma lista bastante abrangente de links para os sites de várias entidades internacionais). Se isto não comprometeu comprovadamente a qualidade do ensino da Arte Marcial, afetou, no entanto, algumas pretensões financeiras e de poder por parte de alguns que se consideram os “únicos e legítimos herdeiros” da obra desenvolvida, inicialmente, sob a liderança do General Choi.

O inferno são os outros…

Uma postura bastante comum em muitos líderes das principais organizações é, primeiramente, “negar a existência do outro” e, quando, com uma importante contribuição da internet, não dá mais para esconder dos próprios alunos que “inimigo mora ao lado“, nega-se lhe qualquer qualquer atributo de qualidade técnica, didática e gerencial.  Muitos gestores gastam um  tempo significativo falando mal dos seus concorrentes. Se os esforços para denegrir os concorrentes fossem concentrados na busca de métodos inovadores de gestão e de prática docente, as suas organizações alcançariam um desempenho muito melhor do que se, eventualmente, conseguissem  até mesmo “eliminar a concorrência”.

A concorrência é saudável, favorece a inovação e diminui a tendência a ficarmos acomodados, agarrados a modelos de gestão que, se alcançaram sucesso (???) no passado, já não servem para as demandas e desafios que o mercado nos coloca neste início de século XXI.

Diálogo, intercâmbio e competição…

Muitas vezes eu escutei colegas Faixas-Pretas lamentando um suposto “paraíso perdido”: – Ah, como era bom o tempo em que havia uma única ITF…

Era bom mesmo ? Não haviam os vários descontamentos abafados pela autoridade do General Choi e por seus representantes nacionais ? O Taekwon-Do Tradicional era amplamente conhecido e praticado no Brasil ? A maioria dos Instrutores podiam se dedicar exclusivamente ao Taekwon-Do e viver confortavelmente, com qualidade de vida digna e sem depender de outras fontes de renda ? Não haviam Faixas-Pretas defasados em suas graduações, que já mereciam estar bem mais avançados em suas carreiras ? Existiu, mesmo, esta “era dourada do Taekwon-Do ITF” no Brasil ?

Certamente, as dificuldades enfrentadas pelos praticantes desta Arte Marcial, no Brasil, não aumentaram com o surgimento de novas organizações gerenciando o Taekwon-Do Tradicional. Ao contrário, um primeiro benefício desta diversificação foi a distribuição, em diferentes entidades nacionais, de praticantes que, devido às mais diversas e justificadas disputas com seus pares, teriam, antes, que se afastar do Taekwon-Do ou se submeter a condições desfavoráveis aos seus desenvolvimentos como artistas marciais e como seres humanos.  Hoje, já existe uma possibilidade maior de encontrarmos uma entidade que se ajuste ao nosso “perfil profissional”.

Precisamos reconhecer e respeitar a existência do “outro”. Precisamos dialogar e aprender com o “outro”. Precisamos criar espaços para intercâmbios entre os praticantes ligados às várias organizações, realizando seminários técnicos, competições e mesmo encontros abertos àqueles que se encontram filiados às várias federações. O Brasil é um país continental e há espaço para todas as organizações crescerem e se desenvolverem em nosso país, todos podendo ganhar muito dinheiro com a prestação de serviços e venda de produtos ligados ao Taekwon-Do. Mas é preciso, também, ter muita coragem e muita competência para substituir, com inovação e qualidade, modelos de gestão ultrapassados e que nunca apresentaram resultados satisfatórios em nosso país.

Bons dias !!!

Sabum Nim Eduardo Godoi (4o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Rua Armando Steck, 408 – sala 3 – Centro – Louveira – SP – CEP 13.290-000

O terror vindo dos céus

por Luiz Carlos Silva

Durante todo o transcurso da guerra (1950-1953), Pyongyang a capital da República Democrática Popular da Coréia, foi pesadamente atacada com todos os tipos de bombas daquela época de forma implacável, indiscriminada e impiedosa pela Força Aérea dos Estados Unidos, principalmente com bombas de Napalm. Foram mais de 1000 bombas por quilômetro quadrado, e a destruição foi total e aniquiladora. Toda a estrutura e infra-estrutura da cidade foram destruídas: energia elétrica, água potável, hospitais, escolas, transporte, comunicações, pontes, indústrias, estradas, farmácias e todo o comércio. A cidade foi praticamente riscada do mapa.

Quando o armistício foi assinado em 27/07/1953 havia somente 2 prédios na cidade, na qual 400.000 pessoas haviam residido, uma foto aérea tirada em meados de 1953 sobre esta capital, mostrou que as condições da cidade estavam semelhantes as cidades de Hiroshima e Nagasaki logo após terem sido bombardeadas com armas nucleares pelos Estados Unidos em 06.08.1945 e 09.08.1945 respectivamente. É bom que fique aqui registrado que os EUA foi o único país na história da humanidade a lançar armas nucleares sobre seres humanos.

Quanto a guerra da Coréia, a destruição, matança indiscriminada, flagelo,  desgraça,  fome e  miséria sem paralelos que se abateram sobre a população coreana e de forma tão aguda que se perpetuou nos anos seguintes pela estagnação da economia e instabilidade política, como conseqüência de tão arrasadora experiência. Na parte norte da península coreana foram centenas de milhares de crianças, mulheres e idosos mortos despedaçados e carbonizados. Além de milhares de órfãos e sobreviventes, desfigurados pelas queimaduras, mutilados pelas bombas de fragmentação e por outras armas. E ainda milhares de famílias separadas e dezenas de milhares de casas destruídas, entre tantas outras barbaridades.

As terríveis bombas de Napalm

Durante todo o conflito (1950-1953), os Estados Unidos mantiveram uma política de pesados e constantes bombardeios em larga escala sobre a população da Coréia do Norte, especialmente utilizando bombas incendiárias contra todas as cidades e instalações civis e militares da parte norte da península coreana. Mesmo que esses tipos de atrocidades fossem tristemente lembrados no mundo pelo horror das imagens de vítimas civis, justamente na Guerra do Vietnã, pois naquele período programas de TV mostravam frequentemente para todo o mundo, cenas horripilantes de: crianças, idosos mulheres sendo queimadas vivas.

A bomba de Napalm possui uma substância gelatinosa que cola na pele, causando queimaduras de 3º grau, pois as pessoas mesmo entrando na água, ainda continuam queimando e significativamente muito mais Napalm foi lançado no norte da península (1950-1953) apesar do relativo pouco tempo de guerra em relação a Guerra do Vietnã. Para se ter uma idéia, durante o final da 2ª metade do ano de 1950, somente neste período foi lançado o equivalente a mais de 1 milhão de galões de Napalm sobre a população civil coreana na parte norte.

Em Maio e Junho de 1953, reforçando ordens do General Douglas Mac Arthur (1880-1964), o então 33º Presidente dos Estados Unidos Harry Truman (1884-1972), autorizou o General Curtis Emerson LeMay (1906-1990), líder do Comando Estratégico Aéreo (líder daquele comando desde 19 de Outubro de 1949) a bombardear toda a parte norte da península usando bombas de fragmentação e também bombas incendiárias. Em suma, a ordem era destruir todas as barragens, hidroelétricas, agricultura, indústria, plantações de arroz e incendiar todas as cidades e aldeias de camponeses da Coréia do Norte, matando também milhares de pessoas afogadas devido a destruição das barragens e posteriormente outros milhares morreram de fome.

C.E. LeMay, o mais jovem general da Força Aérea dos Estados Unidos a receber a 4ª estrela, desde Ulysses S. Grant (1882-1885) do Exército,  declarou:

“Nós matamos 30% da população da Coréia do Norte, na verdade nós matamos 40% da população da Coréia do Norte, talvez o maior percentual de população civil morta, na história de todas as guerras.”

O mesmo LeMay, já em sua aposentadoria declarou:

“Nós consumimos pelo fogo cada cidade da Coréia do Norte, e algumas poucas do Sul por engano, mas de qualquer forma nós as queimamos.”

O inesquecível ato solene de 22.09.2002 em memória ao General Choi

por Luiz Carlos Silva

Exatamente no dia 22 de Setembro de 2002 (data estipulada por ocasião das exéquias do General Choi), 70 representantes de 46 países participaram do serviço memorial simbolizando o 100º dia da morte do General Choi, fundador e Presidente da ITF. A solene e memorável homenagem foi realizada em Pyongyang, capital da República Democrática Popular da Coréia, ressaltando que o General Choi nasceu na região norte da península, antes da trágica divisão do país.

Um Congresso Especial também foi realizado em 22.09.2002 justamente para confirmar os sagrados desejos e vontades do supremo grão mestre Choi, expressos em suas últimas palavras quando com seu povo no dia 11 de Junho de 2002, perante 9 dos principais dirigentes da ITF entre os quais seus compatriotas mais graduados, antigos, fiéis e leais discípulos: Hwang Kwang Sung, Rhee Ki Ha e Park Jong Soo. 

O General designou seu sucessor, o membro do Comitê Olímpico Internacional Chang Ung, como novo presidente. E observou em suas próprias palavras:

“O Taekwon-Do nunca existirá sem a República Democrática Popular da Coréia.”

Este grande patriota e supremo pai do Taekwon-Do também falou: GM Hwang Kwang Sung, teu dever é grande e importante como Presidente do Comitê de Fusão (Unificação da Arte), referindo-se a futura união com a WTF.

No Congresso Especial de 22.09.2002 em seu discurso de aceitação, o membro do COI relatou nove metas para a nova presidência:

1. Estabelecer unidade e harmonia entre os membros da ITF por todo o mundo.

2. Reestruturar a constituição da ITF tornando-a mais forte em âmbito nacional e Internacional;

3. Obter reconhecimento do COI para a ITF.

4. Tratar com a WTF para a participação de membros da ITF nos Jogos Olímpicos.

5. Unificar o Taekwondo ITF e WTF

6. Estabelecer fontes mais fortes apara a captação de recursos para a ITF de acordo com leis de âmbito Nacional e Internacional.

7. Ajudar grupos organizados em seus respectivos países lhes garantindo apoio financeiro.

8. Ativar a Fundação Chan Hun para ajudar a ITF financeiramente.

9. Trabalhar arduamente para dar continuidade a filosofia e prática do Taekwondo original

A carreira do Sr. Chang Ung (64 anos em 2002) atravessa décadas como instrutor na Escola Profissional de Esportes de Pyongyang. Servindo sempre oficialmente como um dos principais dirigentes em muitos Comitês dos Esportes Olímpicos Coreanos. Ele é um dos fundadores da Federação de Taekwondo (ITF) na República Democrática Popular da Coréia um dos principais dirigentes que começou a apoiar a tentativa de unir as duas entidades (WTF e ITF) há vários anos. Em Agosto de 2002, encontrou-se com os membros do COI Norte/Sul -Coréia) para tratar da inclusão da ITF nos Jogos Olímpicos.

Chang Ung, que fala fluentemente o Inglês, declarou em seu discurso de aceitação em 22.09.2002.

“Devemos unir nossos concentrados esforços para superar tempestades. Devemos demonstrar o espírito indomável e perseverante do Taekwondo. Mostraremos ao mundo a força, a resistência e o valor dos Taekwondistas ortodoxos. Eu me antecipo em relação às informações que recebo sobre futuras críticas que poderão acontecer em relação ao meu trabalho. Sinceramente irei apreciar vosso apoio e encorajamento, para concluir meu discurso, há uma citação neste país “Impossível não é uma palavra coreana”.

Intolerância

por Eduardo Godoi

Prezados Leitores

Após a criação da World Taekwondo Federaition (WTF) a pedido do ditador sul-coreano Park, Jung-hee, em 1973, muito da estrutura do poder instalado na Coréia do Sul – incluindo o trabalho de seus embaixadores e dos agentes da Korean Central Inteligence Agency (KCIA) – é usado na tentativa de eliminar a existência da International Taekwon-Do Federation (ITF) e do General Choi, Hong Hi: são espalhados boatos sobre a dissolução da ITF e sobre a morte do seu fundador; há tentativas de sequestro e de assassinato do General Choi; Mestres e Instrutores sul-coreanos trabalhando em outros países são induzidos a trabalhar para a WTF através de propinas ou de ameaças à vida de seus parentes que permanecem na Coréia do Sul.

Embora tenha apoiado o golpe de estado que levou o generalíssimo Park ao poder, em 1961, o fundador da ITF afastou-se, aos poucos, do ditador e viu-se obrigado a emigrar para o Canadá, em 1972. Tornando públicas as suas críticas ao regime totalitário instalado em seu país, foi rotulado como um traidor.

Com o assassinato do General Park em dezembro de 1979, um novo ditador sobe ao poder na Coréia do Sul (o general Chun Do-hwan) e é responsável pelo massacre de civis na cidade de Kwangju: segundo a reportagem da BBC News (“The Kwangju massacre“), após o decreto de um nova lei marcial em 17 de maio de 1980, aproximadamente dois mil manifestantes são mortos pelas tropas governistas durante os protestos que se desenvolvem a partir do dia 18, passando o movimento de democratização a ser referido como “518” (May, 18). O trailer do filme ” May 18 – 화려한 휴가 “, sugestão do Sr. Luiz Carlos Silva (colaborador deste blog), dá uma pequena idéia desta chacina que foi abertamente condenada pelo General Choi, Hong Hi.

No início dos anos 80, para garantir a sobrevivência da International Taekwon-Do Federation (ITF), através da formação de Instrutores coreanos e da injeção de capital estatal, o General Choi firma uma sólida parceria com o governo da Coréia do Norte, o que lhe garante, além do muito dinheiro necessário para a publicação dos quinze volumes de sua enciclopédia Legacy, uma nova onda de disseminação do Taekwon-Do, com o envio de Instrutores coreanos certificados pela ITF para países capitalistas e, uma novidade, para países socialistas. Tal  sucesso, no entanto, rende ao General Choi e a toda a International Taekwon-Do Federation o reforço da pecha de “comunista”, o que, naquele momento histórico, não agrega um valor positivo à marca ITF nos países de economia de mercado.

É muito interessante o depoimento de um Instrutor de Taekwondo WTF, o finlandês Markku Parviainen, num seu artigo intitulado “The Dark Side of Taekwondo” e publicado num blog da revista Tae KwonDo Times. Ele nos conta de seu Mestre, um coreano combatendo fortemente o Taekwon-Do ITF:

“One funny example was how paranoid our Korean instructor was towards ITF taekwondo. He did all kind of accusations about ITF and how it was involved in international terrorism and how it was a Communist organization.

Durante uma visita do General Choi à Finlândia, há 30 anos atrás, Markku Parviainen e seus amigos foram ao local onde se realizava um campeonato nacional com a instrução de fotografarem todos os coreanos que se aproximassem do General Choi para que as imagens fossem entregues à embaixada sul-coreana. Somente mais tarde descobriram que o tal Mestre coreano trabalhava para a KCIA.

“I later found out that our teacher had very close connections to the Korean Secret Police and we were most likely providing some information to them.”

Prezados Leitores, quanto mais eu aprendo sobre a história das Coréias e sobre a história do Taekwon-Do ITF / Taekwondo WTF, mais eu considero a arte marcial que tanto amo como um legado cultural – extremamente complexo – da Guerra Fria.

Bons dias !!!

Boosabum Eduardo Godoi (3o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Breve relato da história do Taekwon-Do muito pouco divulgada

por Roberto Abdo

Este trabalho foi baseado nos relatos divulgados através do livro “A KILLING ART – THE UNTOLD HISTORY OF TAE KWON DO”,  de Alex Gillis, que traz uma vasta coleção de notas, com o intuito de demonstrar crédito a sua obra. Aqui, deixarei de buscar tais referências, por entender que não é o caso.

Devemos tentar entender essa história não por nossos princípios ou nossa realidade, porém buscar compreender o contexto, ou contextos, pelos quais ela se desenvolve.

Clique, aqui, para ler, na íntegra, a monografía do Boosabum Roberto Abdo.

Por mais que nos pareçam deploráveis as circunstâncias da fundação e desenvolvimento do Tae Kwon Do, devemos entender, primeiro, que os caminhos para sua criação foram trilhados em um ambiente muito diferente daquele onde vive o pensamento ocidental.

O que nos parece imoral, e até mesmo impensável, naqueles momentos, naquelas regiões, entre aquelas pessoas, pode ter sido perfeitamente normal. Pode ter sido parte de um jogo, a cujas regras e movimentos não estamos habituados.

Estudando o pouco que pude da história me senti como um torcedor. A cada fato, a cada resultado, vibrava, me revoltava, me entristecia, por vezes me enojava. Pude entrever, porém, a paixão com que foram jogadas as peças da construção desta Arte. Uns em busca de poder, gloria e dinheiro. Outros iam além, buscando a imortalidade.

Tanto seus pioneiros, entre eles Nam Tae-hi e Jong-Soo Park, como seus opositores, seus perseguidores, usurpadores e até mesmo os inimigos invasores japoneses, contribuíram para a formação do Tae Kwon Do.

Como ocidental, não sei dizer se o General Choi Hong-Hi estava certo ou errado em suas atitudes. Conforme lia, mais torcia por ele. Na minha modesta opinião, ele era fantástico.

Não sei dizer, também, o quanto dos princípios do Tae Kwon Do ele seguiu, aplicou ou burlou. Sei que sua PERSEVERANÇA, ESPÍRITO INDOMÁVEL e AUTO-CONTROLE (ou sua falta) nos permitiram desfrutar o aprendizado de, mais que um simples esporte, uma Arte Marcial bela, eficiente e, por que não dizer, refinadamente mortal.

Boosabum Roberto Abdo (1o. Dan)

Ch’ang Hon Ryu Taekwon-Do Brasil
Academia Shaolin – Louveira – SP
Rua Armando Steck, 294 – sala 2 – Centro

Coréia: uma nação dividida

por Luiz Carlos Silva

Tendo em vista a Coréia encontrar-se sob dominação japonesa (colônia do Japão), oficialmente desde 1910, Estados Unidos, Reino Unido e República da China haviam prometido uma Coréia livre e independente através da Declaração do Cairo em novembro de 1943 e, também, na Declaração de Potsdam de julho de 1945, com os chamados “Três Grandes”: EUA, União Soviética e Reino Unido.

Winston Churchill, Harry Truman e Joseph Stalin, Potsdam-Alemanha julho de 1945

As tropas soviéticas invadiram o Estado Manchukuo, (um estado fantoche na Manchúria, invadida em 1931 pelos japoneses) entre 8 e 9 de agosto de 1945 na chamada “Operação Tempestade de Agosto”, comandada pelo Marechal Alexandr Vasilevsky (1895-1977) e posteriormente penetraram na região norte da Coréia. As tropas norte-americanas entraram na península pelo Porto de Inchon, em 8 de setembro de 1945, comandadas pelo famoso Tenente General (general de 3 estrelas) John Reed Hodge (1893-1963) comandante do 10º Exército dos Estados Unidos.

Tanto os norte-americanos quanto os soviéticos estabeleceram um regime militar nas áreas que ocupavam respectivamente, em vez de permitirem que os coreanos naturalmente governassem seu próprio país, mesmo depois das guarnições japonesas na Coréia terem sido desarmadas.

A absoluta maioria dos coreanos quando souberam da rendição de seus opressores japoneses aos aliados, através da famosa mensagem de rádio lida pelo próprio imperador Hirohito (1901-1989), em15 de agosto de 1945, obviamente ficaram radiantes, tamanha a felicidade, contentamento e alegria e, certamente, contando com a automática, total, irrestrita e imediata independência de sua pátria mãe. É importante lembrar que a capitulação nipônica foi ocasionada como conseqüência das duas armas nucleares lançadas pelos Estados Unidos em Hiroshima 06/08/45 (Urânio) e em Nagasaki 09/08/45 (Plutônio). É importante lembrar que os Estados Unidos é o único país na história da humanidade a ter lançado armas nucleares em seres humanos.

Entretanto, o júbilo nacional dos coreanos muito cedo se transformou em desapontamento, indignação e revolta, quando a divisão territorial ao longo do paralelo 38 foi anunciada. E vale a pena lembrar que a iniciativa de dividir a Coréia foi tomada pelo 33º Presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman (1884-197). Em 11 de Agosto de 1945 Harry Truman ordenou ao seu Departamento de Guerra, através da famosa Ordem do Dia nº. 1: organizar, preparar, montar, ou seja, redigir formalmente o documento de rendição das forças japonesas de ocupação. Esta tarefa foi atribuída a dois jovens oficiais militares, o Cel. Charles Hartweell Bonesteel (1909-1977) que chegou ao posto de general de 4 estrelas ainda na ativa, e o Cel. Dean Rusk (1909-1994) posteriormente Secretário de Estado nas gestões dos Presidentes: John F. Kennedy (1917-1963) e Lindon B. Johnson (1908-1973). Nesta ordem, estava incluída a tarefa de dividir a península em duas zonas distintas: os dois oficiais escolheram, então, o paralelo 38 como divisa. Joseph Stalin (1879-1953) logo foi consultado e concordou.

No dia 2 de setembro de 1945, a rendição foi formalmente assinada por oficiais japoneses e assinada e recebida pelo lendário General Douglas Mac Arthur (1880-1964) a bordo do encouraçado Missouri, dos Estados Unidos, na baía de Tóquio.

A verdadeira causa da divisão nunca foi totalmente esclarecida, muito embora o resultado verdadeiro tenha sido o de permitir que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ocupasse a parte setentrional da nação. Lembrando que a União Soviética e os Estados Unidos tinham sido aliados na 2ª Guerra e levando em conta o fato de serem nações antagônicas em relação a seus específicos sistemas e regimes político, ideológico, doutrinário, econômico e social, ocasionando assim uma total, recíproca falta de confiança entre os mesmos, ou seja, eles achavam que se um abandonasse sua respectiva parte ocupada o outro aproveitaria tal oportunidade e imediatamente ocuparia toda a península.

Considerada como a etnia mais homogênea e distinta, uma só tradição cultural, os coreanos possuem a mesma história de milhares de anos, mesmo idioma (Ural-Altaico), o mesmo alfabeto Hangul, mesma característica física, ou seja, o povo coreano tem um forte senso de independência, diligência, patriotismo e solidariedade, ou seja, irmãos de sangue.

Há 10 milhões de famílias separadas, sem qualquer contato desde a separação 1945, formalizada em 1948 e a guerra fratricida (1950-1953), uma das maiores tragédias na face da terra, que nem mesmo Franz Kafka (1883-1924), poderia imaginar. São milhões de famílias: irmãos, filhos, sobrinhos, netos, primos, amigos, que nunca mais puderam se ver ou comunicar. Por exemplo, na divisão que aconteceu na Alemanha e Vietnã (hoje já reunificados), as pessoas, naqueles tempos, em muitos momentos podiam pelo menos trocar cartas. Na Coréia, até a troca de correspondência é vetada. E, infelizmente, nestes mais de 50 anos, dezenas de milhares destes familiares coreanos separados já morreram sem nenhum contato desde a separação.

A comissão conjunta, composta de representantes das forças de ocupação: os norte-americanos no sul e os soviéticos no norte foi estabelecida no início de 1946, segundo o acordo entre os Ministros do Exterior da América, Rússia e Inglaterra, firmado em 27 de novembro de 1945, em Moscou, justamente para formar um governo provisório na Coréia. O governo provisório se e quando criado, deveria incluir representantes de organizações sociais e políticas da Coréia sob uma administração por um período máximo de 5 anos, e supervisionado pelos Estados Unidos, Grã Betanha e China.

A comissão conjunta soviético-americana foi encarregada de encontrar uma fórmula para organizar um governo provisório e preparar o caminho para o estabelecimento de um governo unificado e democrático em toda a Coréia. Ela se reuniu em Pyongyang e Seul em 1946 e 1947, mas não chegou a nenhum acordo. Além disto, a absoluta maioria do povo coreano não queria administração alguma e exigiu a total, irrestrita e imediata independência para sua pátria.

Quando os esforços conjuntos soviético-americano não conseguiram qualquer resultado tangível, a questão coreana foi levada para a Assembléia geral das Nações Unidas que, em setembro de 1947, aprovou uma resolução para efetuar eleições gerais na Coréia, a fim de lhe assegurar imediata independência e unificação.

A comissão temporária da ONU para assuntos coreanos foi formada em 1947 e enviada para Seul, no ano seguinte para preparar e supervisionar as eleições. Entretanto, os soviéticos e seus seguidores no norte se recusaram a cumprir a resolução das Nações Unidas, boicotando a entrada dos membros da Comissão na parte norte da Coréia.

No lado sul, Syng Man Rhee (1875-1965) que era metodista, falava inglês fluentemente, considerado o primeiro coreano a obter doutorado em Princeton, foi escolhido pelo governo dos Estados Unidos da América para ser o líder da parte sul da península: levado secretamente para Seul em 1945, ele ajudou a construir o que se tornaria uma máquina política, cruel, devastadora e implacável.

Inúmeros coreanos moderados foram assassinados, torturados e encarcerados Além de cometer vários massacres contra o pacato povo coreano, ele foi eleito Presidente da República da Coréia, exatamente nas eleições realizadas em 10 de Maio de 1948, tomando posse exatamente em 15 de Agosto de 1948 justamente para coincidir com o aniversário da libertação do jugo japonês. A crueldade e corrupção de seu regime continuaram durante os 3 anos da Guerra da Coréia, quando a Coréia do Norte invadiu a do Sul em 25 de Junho de 1950. Encerrado o conflito exatamente em 27 de Julho de 1953, Rhee continuou perseguindo seus opositores e venceu 3 eleições de forma fraudulenta. Em 1960, o governo dos Estados Unidos, cansado das tantas atrocidades de Rhee, retirou-lhe o apoio levando-o a renunciar exatamente em 26 de Abril de 1960. Syng Man Rhee foi então exilado no Havaí, onde morreu em Honolulu em 19 de Julho de 1965, aos 90 anos de idade.

Na parte norte, Kim iL Sung (1912-1994), que recebera treinamento militar na União Soviética, foi eleito Secretário Geral do Comitê Central do Partido Trabalhista exatamente em 03.09.1948 e em 09.09.1948 foi formalizada a República Democrática Popular da Coréia. Neste momento, Kim iL Sung torna-se o 1º Ministro, sendo adotado um regime totalitário stalinista. Em 28/12/1972, Kim é eleito Presidente da República Democrática Popular da Coréia. O regime foi marcado por uma mistura de fantasia, ditadura, tirania e culto a personalidade de Kim (aclamado pelos norte-coreanos como Grande Líder). Ele transformou o país e o povo nos mais isolados e afastados da realidade mundial, sendo raros os turistas que visitam o país e há pouco intercambio comercial com o exterior.

Após o épico encontro dos Presidentes Kim, ocorrido na península coreana em Pyongyang justamente nos dia 13 a 15 de junho de 2000, quando então Kim Dae Jung (1925-2009), gestão1998 a 2003, vulgo D.J. (apelidado de Mandela da Ásia por sua incansável e intensa atuação  na defesa dos direitos humanos, pela democracia, paz e também pela reconciliação entre os dois lados), encontrou-se com Kim iL Jong,  ocorreram muito mais de uma dezena de encontros de 3 dias, entre grupos de 100, 200, 400 familiares de cada lado, cada vez, ou seja, de famílias separadas, sem nenhum contato há 40, 45, 50, 55, 60 anos, em encontros permitidos oficialmente em: Seul, Pyongyang e Monte Gum Gang. A iniciativa do encontro de Junho de 2000, e também a intensa e incansável dedicação de Kim Dae Jung na luta pelos direitos humanos, pela democracia, paz e pela reconciliação entre os 2 lados, mais a permissão dos encontros (de familiares) levou o próprio Jung a conquistar o prêmio Nobel da Paz do ano 2000.